O perigo de andarmos blindados na estrada

Raquel Baptista Lopes

Coordenadora Digital do Diário de Notícias

Publicado a

Há dias em que a estrada parece um campo de batalha, mas nós, parece que nós estamos sentados no sofá da nossa sala.

Poderia estar a falar do conforto que os carros nos proporcionam, hoje em dia, mas não.

É a realidade que se sente quando nos pomos ao volante de um Range Rover, por exemplo, num dia de tempestade: lá fora o mundo desaba e a chuva castiga o para-brisas mas, lá dentro, protegidos por vidros grossos e suspensões que abafam tudo, reina uma calma artificial que nos faz sentir absolutamente invencíveis.

O problema é que esta bolha de conforto não se limita aos carros de luxo. Os automóveis tornaram-se tão seguros, tão protegidos por ajudas electrónicas e cheios de sensores que nos adormeceram por completo.

Retiraram-nos a noção real do perigo.

Antigamente, conduzir um carro potente (ou não) à chuva exigia respeito sério pelo acelerador, sensibilidade no volante e atenção a cada detalhe da estrada. Hoje, a tecnologia resolve as nossas falhas e as nossas distrações antes mesmo de darmos por isso. Transformámo-nos em condutores piores e desligados, porque passámos o nosso instinto de sobrevivência para um computador de bordo.

Além disso, esta blindagem tecnológica mudou por completo a nossa relação física com a máquina. Antigamente, o carro 'falava' connosco através da vibração da caixa de velocidades, do som do motor ou da resistência do pedal; hoje é um casulo tão isolado e silencioso que perdemos o contacto com a realidade da estrada. O carro faz tanto por nós que o condutor deixou de pilotar para se tornar um mero espectador do próprio trajeto.

A grande ironia disto tudo é que esta falsa sensação de segurança é o maior perigo nas estradas de hoje.

Criámos a tal armadura: quanto mais protegidos estamos contra o erro, mais relaxados andamos, a contar que a máquina nos safe de tudo.

Para voltarmos a ser bons condutores, a indústria precisava de fazer o oposto: precisava de nos devolver o medo. Não o pânico, mas o respeito puro pela máquina. Um carro que faça o condutor suar um bocadinho, que exija técnica a sério e que não disfarce as leis da física é um carro que nos obriga a estar ali, presentes de corpo e alma.

No fim do dia, tudo nas mãos de sensores e radares pode até dar bons números nos relatórios de segurança (digamos até melhores, pois ainda há muitos acidentes graves nas nossas estradas) mas rouba-nos o mais importante: a nossa responsabilidade.

E um carro que pensa, trava e corrige tudo por nós transforma-nos, tragicamente, em meros passageiros da nossa própria vida.

Diário de Notícias
www.dn.pt