O paradoxo da velocidade

Raquel Baptista Lopes

Coordenadora Digital do Diário de Notícias

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Imaginemos o seguinte cenário: é quinta-feira de manhã, está a chover, e estamos presos no trânsito. Nós, estamos ao volante do nosso carro novo, um topo de gama, com um motor capaz de dar 260 km/h. No entanto, ao nosso lado direito está um "avião", com um motor capaz de dar 400 km/h, e do lado esquerdo, um carro mais humilde, com 60 cavalos que mal chega aos 150 km/h... e estamos todos a andar exatamente ao mesmo ritmo. O para-arranca é tanto que, para sermos honestos, se fôssemos montados num caracol se calhar chegávamos mais depressa ao trabalho.

Esta é uma das grandes ironias dos nossos dias. Nós compramos carros porque gostamos da ideia de potência, mas assim que saímos à rua, o mundo encarrega-se de nos travar a fundo.

Temos estradas cronicamente entupidas e uma rede de radares apertada. Os limites de velocidade são tão rígidos que tentar usar uma pequena fração da força do motor passa rapidamente de uma diversão a um crime de trânsito. E como se o trânsito e a lei não bastassem, a própria indústria automóvel decidiu cortar-nos as asas. Hoje em dia, muitos carros já saem de fábrica com uma espécie de "açaime" eletrónico. O motor até tem pulmão para ir mais além, mas os limitadores de velocidade cortam a festa assim que chegamos a uma certa marca. Na prática, acabamos a pagar uma fortuna por cavalos de potência que estão literalmente proibidos de correr pelo próprio computador do carro.

Então, porque é que continuamos a gastar dinheiro nestas máquinas superpotentes?

A resposta é simples: já não compramos velocidade, compramos a ilusão do potencial.

É a exata mesma lógica que leva alguém a comprar um relógio de mergulho, capaz de aguentar 3.000 metros debaixo de água, só para ir a uma reunião de escritório. Ninguém vai fazer exploração em alto mar depois de enviar uns emails. Usamos o relógio apenas porque é reconfortante saber que, se quiséssemos, ele aguentava o impacto.

Com os carros passa-se rigorosamente o mesmo. A máquina deixa de ser apenas um meio de transporte para se tornar numa fantasia. Pagamos pela tranquilidade de saber que, debaixo do pé direito, temos um motor capaz de tudo. E mesmo que nunca passemos dos 120 km/h, ou que estejamos parados à chuva a ser metaforicamente ultrapassados por um burro, essa sensação íntima de que "se eu quisesse, ia por aí fora" é, na maior parte das vezes, tudo o que precisamos para sorrir quando vemos uma estrada aberta.

É inevitável não dar por mim a pensar: será que todos os países deviam adotar a célebre regra da Alemanha, com algumas das suas autoestradas sem restrições que nos permitem carregar a fundo no acelerador?

A ideia é tentadora, sem dúvida.

Mas sejamos realistas: por cá, a caça à multa é um desporto nacional demasiado lucrativo para desaparecer, e alguém tem de continuar a contribuir generosamente para o fundo a fundo perdido do Estado português.

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