O luxo do tempo e da tecnologia: quem ganha?

Raquel Baptista Lopes

Coordenadora Digital do Diário de Notícias

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Entrar num carro moderno hoje em dia é quase como entrar na secção de televisores de uma loja de eletrodomésticos. E já nem precisa de ser um topo de gama: de um simples utilitário a um carro familiar, há luzes por todo o lado, alertas a apitar e ecrãs táteis gigantes a ocupar o tablier de uma ponta à outra.

Sem darmos por isso, transformámos (ou aceitámos que tenham transformado) os carros em smartphones com rodas. Antigamente, o luxo de um automóvel sentia-se no peso de um botão de metal ou no cheiro da pele. Hoje, as marcas parecem competir apenas para ver quem enfia o maior ecrã à frente do condutor. A condução em si ficou para segundo plano, perdida num mar de menus.

Útil? Poderemos dizer que sim. Tudo fica facilitado com um carregar ou deslizar do ecrã.

Seguro? Isso poderá ser uma discussão para outra altura.

Mas vamos ser honestos e descer à terra: detestar a tecnologia a mais nos carros é muito bonito na teoria, mas no mundo real a conversa é outra.

Para quem tem dias de loucos, cheios de temas para resolver, a viagem de carro não é um passeio tranquilo de domingo. É tempo útil e precioso.

Ter o telefone emparelhado, fazer chamadas em alta voz para despachar assuntos ou ter o carro a ler-nos os e-mails no ecrã enquanto o trânsito não anda... dá imenso jeito. Não é uma distração, é quase uma necessidade de sobrevivência. Quando a agenda aperta e precisamos de ir fechando temas a caminho de casa ou do escritório, ter este autêntico "escritório móvel" salva-nos a vida.

Ainda assim, e precisamente por causa desta loucura diária e de hoje em dia, qualquer carro banal estar minado de tecnologia, acredito que o futuro do hiper luxo automóvel vai dar uma volta de 180 graus. O caminho vai ser a desintoxicação digital.

As marcas no seu geral vão acabar por perceber que quem compra os seus carros já passa o dia inteiro a olhar para ecrãs. O maior símbolo de riqueza no futuro não vai ser ter três televisões no painel, mas sim o luxo de não ter nenhuma. Vamos ver o regresso em força do analógico: mostradores com ponteiros mecânicos, botões a sério que fazem "click" e um espaço limpo, pensado de forma egoísta apenas para o prazer de conduzir.

No fundo, o verdadeiro luxo moderno não é estar ligado ao mundo a 120km/h. É termos o privilégio — e a arrogância talvez — de, durante o tempo em que seguramos no volante, estarmos absolutamente incontactáveis. Isso dá-nos a possibilidade de termos um espaço de detox e destress — apesar de o trânsito já por si ser uma ótima ferramenta de stress...

O verdadeiro luxo, não será o carro em si, mas sim a autoimposição de um limite para bem estar que um ser humano poderá ter: a opção de não estar constantemente a receber um rol de notificações dos pendentes a resolver, mas sim a possibilidade de carregar no off switch assim que se entra na viatura.

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