O luxo de desligar (com a tecnologia ao alcance da mão)

Adelaide Cabral

Jornalista

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Passamos a vida a tentar otimizar cada minuto e cada quilómetro. É do ponto A ao ponto B sem falhar, a obedecer àquela voz do GPS que nos diz exatamente onde virar para poupar três minutos e evitar o trânsito. Transformámos qualquer viagem num simples intervalo entre sair de um sítio e chegar ao outro. A viagem em si deixou de contar. Mas será que não estamos a perder o melhor da estrada ao banir o acaso?

Tenho um compromisso familiar que me leva todos os meses um fim de semana a Leiria. Sendo alguém que trabalha todos os domingos, com o tempo escrupulosamente contado, as minhas deslocações costumam ser a personificação da eficácia moderna: o caminho mais curto, o ecrã a ditar o percurso e a pressa de chegar ao hotel para adiantar o trabalho do dia seguinte.

O tempo é escasso, a agenda é apertada e o GPS é o meu aliado natural num sítio que conheço mal. Mas num dos regressos ao hotel, com o sol a pôr-se – a minha parte favorita do dia – e a música certa a tocar no carro, deu-me um assomo de rebeldia: desliguei a navegação e decidi perder-me propositadamente pelas estradas da região.

O que se seguiu foram quase 90 minutos de pura evasão. Sem ecrãs a piscar ou maviosas vozes computorizadas a ditar o meu caminho, o trajeto ganhou outra vida. Descobri que por ali existe um vale que terá sido de um Frade, pois assim se chama, e outro que é da Areia. Há Cabeças Redondas e Moinhos da Barosa e desconfio que atravessei três vezes a mesma passagem de nível – sem guarda –, mas nunca, mesmo nunca, recorri ao GPS.

O desafio que lancei a mim mesma foi o de conseguir regressar ao centro de Leiria – cidade e região que continuam a estar envoltas em mistério, apesar das idas agora mais frequentes, ou não estivesse eu sempre a trabalhar – sem recorrer à navegação do smartphone: só guiada pelo meu sentido de direção e pela sinalização rodoviária.

Percorri estradas de vegetação frondosa, aldeias e vilas de que nunca tinha ouvido falar – penso que, na tentativa de superar o desafio lançado a mim própria, acabei por me perder do lado oposto da linha do comboio, porque me lembro vagamente de locais como Gândara, uma Carreira e até com uma Alcaidaria eu dei... acho!

Há quanto tempo não sentia uma paz tão simples e uma satisfação tão genuína. E acho que descobri, ali mesmo, a andar sem rumo pelas estradas de Leiria, exatamente o que o jornalista de tecnologia Clive Thompson queria dizer quando definiu as ferramentas digitais como uma "prótese de tranquilidade". Não estava assustada, não estava ansiosa, sabia que, a qualquer momento, se quisesse ou precisasse, bastaria um toque no ecrã do telemóvel para o GPS me resgatar e pôr na rota certa.

Foi precisamente essa certeza invisível que permitiu ao meu cérebro desligar os alertas e focar-se apenas no prazer de conduzir e desfrutar da paisagem.

Não é que eu não preze a tecnologia, que adoro – o que seria do meu dia a dia sem ela!? –, mas de vez em quando sabe bem voltar ao básico. Como diz o fundador da revista Wired, Kevin Kelly, a tecnologia não nos aprisiona, antes nos dá "opções". A capacidade de ligar e desligar ferramentas tecnológicas à vontade é, segundo ele, a forma máxima de liberdade individual na era moderna.

A história termina comigo a vencer o desafio, voltando a "casa" sem recorrer ao GPS e às novas tecnologias porque descobri uma via rápida ou autoestrada que me conduziu direitinha à cidade – não me perguntem qual – sã e salva pelo caminho mais rápido e já com os candeeiros de iluminação pública todos acesos. Uma via rápida que, tal como o smartphone no meu bolso, é em si mesma um fruto indiscutível da tecnologia e da engenharia modernas.

E é aí que está a ironia. Esta caminhada sem rumo não foi um manifesto contra a modernidade, nem um desejo de voltar ao passado. Foi apenas a constatação de que o verdadeiro luxo da tecnologia é a rede de segurança que ela nos proporciona. Só nos podemos dar ao luxo de desligar o ecrã, arriscar o desvio e celebrar o imprevisto, porque sabemos que ela está ali do lado – pronta para nos salvar, mas sem nos retirar o prazer de, por uns minutos, sermos nós a escolher o caminho.

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