F1: O adolescente que não sabe bem para onde vai

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Depois de em 2025 Lando Norris se ter sagrado campeão do mundo de Fórmula 1, num McLaren que surpreendeu o mundo – e a Red Bull de Max Verstappen, então o favorito para arrecadar o pentacampeonato – sabia-se que podia ser o primeiro acontecimento de uma catadupa de surpresas na modalidade.

As alterações técnicas que estavam na calha para 2026 – olá, motores híbridos – concentraram grande parte dos esforços das equipas da grelha e dizia-se à boca pequena que muitos teams estavam a apostar as fichas todas nesta temporada. A Mercedes era uma delas.

Por isso, quando a dança das cadeiras dos pilotos (e de alguns responsáveis de topo) começou, também ninguém se surpreendeu particularmente. No início desta temporada, e com muito mais dúvidas do que certezas sobre quem podiam ser os potenciais vencedores, havia naturalmente nomes favoritos: Max Verstappen, um dos melhores pilotos da grelha; George Russell, que ascendera ao lugar de veterano da Mercedes depois da saída de Hamilton para a Ferrari, os pilotos da McLaren, Lando Norris ou Oscar Piastri, cujos carros tinham surpreendido no ano anterior e, claro, Lewis Hamilton, que desde 2025 veste o fato da Ferrari.

Foram feitas apostas, os especialistas falaram, as previsões estavam alinhadas. Mas o que poucos – para não arriscar dizer ninguém – previram foi o percurso fulgurante de Kimi Antonelli ao volante do [segundo] Mercedes. Com apenas 19 anos, o italiano tem ganhado o coração dos fãs, não apenas pelas vitórias consecutivas ao volante do monolugar, mas também pela personalidade descontraída e simpática – e tantas vezes contrastante com a do seu colega de equipa, George Russell.

Vai ser, possivelmente, o campeão do mundo deste ano, e ninguém pode dizer que não o merece. Conquistou um lugar na Mercedes pela saída inesperada de Hamilton e, enquanto todos olhavam para Russell, Antonelli trabalhou, focou-se, aprendeu a lidar com o carro e tem dado lições de consistência e de eficácia, ao mesmo tempo que nunca lhe falha o sentido de humor.

Verstappen continua a debater-se com um carro que não faz jus às suas capacidades como piloto – apesar das melhorias significativas das últimas corridas – e tem mostrado um fair play que muitos acusavam de não ter ao longo dos anos em que foi campeão sem praticamente ter concorrência. E Hadjar tem-se mostrado um colega à altura, o que  também foi relativamente surpreendente, mais por ausência de qualquer expectativa do que por outra razão qualquer.

Os McLaren têm andado meio perdidos, depois de um início francamente mau sobretudo para Lando, e os Ferrari têm sido mais do mesmo ao nível da inconstância: ora aparecem incríveis numa corrida, ora ninguém sabe bem o que lhes aconteceu duas corridas depois, com Hamilton a revelar melhorias significativas, em termos globais, e Leclerc a cair.

O que não tem mudado é a divisão das equipas na grelha. A primeira metade continua a ser dominada por Mercedes, Ferrari, Red Bull, McLaren e Alpine (a surpresa do ano, para já), enquanto a Aston Martin tombou para o penúltimo lugar da tabela – pior, só a estreante Cadillac – atrás da Audi, da Williams (outra desilusão) e da Haas.

Agora, se quer uma curiosidade, é voltar a olhar para a tabela do GP de Spa-Francochamp, quando a meio da corrida somos surpreendidos com as posições dos pilotos: há muitos anos que não se viam os carros emparelhados, lado a lado, equipa a equipa. Dois Merces, seguidos de dois Ferrari, seguidos de dois Red Bull e por aí em diante… o que é que isto nos diz sobre a modalidade? Acho que ninguém sabe muito bem, nesta altura.

Esta temporada tem sido estranha e já toda a gente falou sobejamente sobre isso. É como se a Fórmula 1 estivesse num daqueles estágios de crescimento que identificamos às crianças. Sabe para onde quer ir, mas não sabe bem como lá chegar, como se fosse um adolescente com dificuldade em lidar com as novas dimensões do seu corpo.

Os carros híbridos obrigaram os pilotos a tornarem-se mestres em gestão de energia, mais do que em condutores ímpares, e as dificuldades que todos apontam tem marcado as corridas mais do que o desporto, em si. A guerra iniciada pelos EUA no Irão, em fevereiro, obrigou a mexidas no calendário e a paragens inesperadas – o que agradou sobretudo aos pilotos, que já anteriormente se queixavam da quantidade de corridas…enfim. A última corrida foi, finalmente, um bocadinho mais emocionante que as anteriores, mas ainda falta muito para chegar ao encanto que durante tantos anos espalhou por aí.

Olhos postos na Hungria, agora, cuja pista também costuma ser interessante, para ver se o adolescente já começa a atinar com a direção certa do caminho. E para ver se se confirma o domínio do jovem italiano que tem dado mais alegrias ao seu país que a scuderia mais famosa da grelha…

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