Do símbolo de liberdade ao vilão sobre rodas

Adelaide Cabral

Jornalista

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Juntar ao motor à roda foi, muito provavelmente, um dos maiores golpes de génio da história da Humanidade. Se a roda nos tirou da estagnação, o motor deu-nos asas no asfalto. Durante mais de um século, o automóvel representou o auge do progresso, a conquista do tempo e da distância, a ferramenta de trabalho indispensável e a promessa da verdadeira liberdade individual.

Tudo começou a perturbar-se quando a insanidade humana descobriu que essa conquista civilizacional podia ser pervertida. O brutal atentado de Nice, no verão de 2016, gravou a fogo na memória coletiva uma imagem aterradora: o veículo familiar transformado numa arma de destruição em massa. O rasto de ataques copy cat que se seguiu fixou o estigma e alterou a nossa perceção do perigo.

Ao longo da última década, os sucessivos atentados fundamentalistas sobre rodas tornaram evidente a instrumentalização do carro como arma de terror. E se este fenómeno voluntário apanhou desprevenida a civilização, a noção de que o automóvel é também uma arma involuntária de morte nas estradas já não constitui uma surpresa.

Vem de há muito o alerta e apelo ao cuidado na condução, mas na última década a fixação doentia pela limitação da velocidade tem, essa sim, ultrapassado todos os limites – como se esta fosse a única causa de acidente rodoviário

É verdade que, em mãos menos hábeis, desatentas ou incapazes, a velocidade de que a máquina é capaz se traduz facilmente em tragédia. Os números da sinistralidade assustam todos os anos, figurando Portugal no topo dos piores indicadores da União Europeia, com registos dramáticos de mortes que deixam clara a urgência de combater a irresponsabilidade ao volante. Mas na origem do acidente, como se sabe, pode estar desde o uso do telemóvel, a um animal que se atravessou no caminho, as condições do piso ou a má sinalização da estrada.

O problema é que a legítima consciencialização do risco inerente à condução rapidamente descambou numa obsessão regulatória e numa autêntica caça ao automóvel. Sob o pretexto da segurança e empunhando a bandeira de uma suposta neutralidade carbónica, as cidades converteram-se num labirinto de obstáculos e radares. Impõem-se limites de velocidade tão absurdos que chegam a ser inferiores ao ritmo de uma bicicleta lançada numa descida moderada. Ridiculariza-se o condutor e estigmatiza-se a máquina.

A ironia atinge o seu cume na própria indústria: numa altura em que a tecnologia nos oferece motores cada vez mais eficientes, limpos e seguros, a legislação impõe limitadores eletrónicos nos motores que espartilham o desempenho dos veículos. A tecnologia avança, torna o automóvel cada vez mais seguro, mas a confiança no cidadão recua.

E o que dizer da devassa da privacidade dentro do próprio habitáculo do automóvel que se avizinha no espaço da União Europeia? O mesmo cidadão europeu que dava urros de indignação contra a hipótese de ser filmado por câmaras de videovigilância nas ruas — receando ser reconhecido a circular em horas ou locais comprometedores —, aceita agora, sem sobressalto, ter todos os seus gestos monitorizados dentro do seu próprio carro. Tolera-se o controlo contínuo do condutor (e, por contágio, dos passageiros e/ou crianças nos bancos de trás – porque na realidade a câmara não vai enquadrar apenas e só o rosto do condutor!) sob o pretexto da segurança, entregando a intimidade do espaço privado sabe-se lá a quem e onde – porque nenhum sistema informático é inviolável.

E, entretanto, assiste-se ainda ao curioso fenómeno sociológico das novas gerações que recusam tirar a carta de condução em nome de uma ética ambiental. O discurso é nobre, mas a prática tem nuances: ao primeiro trajeto mais longo, tempestade de inverno ou falha dos transportes públicos, os jovens defensores da causa correm prontamente a pedir boleia aos pais ou aos mais velhos. É uma independência moral sustentada no esforço das rodas alheias.

O automóvel não é uma arma, nem deve pagar a fatura das frustrações ou das agendas do nosso tempo. Quando transformamos um dos maiores símbolos da mobilidade humana num bode expiatório, não estamos a construir cidades mais modernas – estamos apenas a travar o progresso que nos trouxe até aqui.

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