A mobilidade não pode ser um castigo

Adelaide Cabral

Jornalista

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A palavra “mobilidade” acabou sequestrada por um dogma moralista. Hoje em dia, debater este tema parece exigir uma adesão quase cega a uma cartilha radical: banir os automóveis, fechar avenidas, diabolizar quem conduz e transformar o ato de deslocação num teste de virtude ambiental.

A narrativa dominante é desenhada por quem habita nos centros urbanos, goza de horários flexíveis e resolve a vida a caminhar ou de trotinete. Mas esta visão romântica ignora a realidade esmagadora de quem não vive à distância de uma estação de metro — uma tendência em franca expansão, numa altura em que a crise habitacional e a subida dos preços das casas nos centros urbanos provocam a fuga dos habitantes para cada vez mais longe.

Para milhares de pessoas com horários rígidos, filhos para deixar na escola, compras para carregar e redes de transportes públicos cronicamente deficientes, o carro não é um capricho, nem um luxo egoísta — é uma ferramenta indispensável de gestão de tempo e de sobrevivência diária.

No entanto, a resposta das políticas urbanas tem sido invariavelmente a punição. Para os "atrevidos" que ainda audaciosamente se aventuram a levar o automóvel para o centro da cidade, o remédio é o castigo sistemático: vias cortadas, eliminação cega de lugares de estacionamento e a imposição de limites de 20 e 30 km/h que parecem desenhados mais para desesperar o condutor do que para gerir o tráfego com inteligência.

Puniu-se o automóvel antes de se construir a alternativa. Cortou-se a circulação sem garantir autocarros pontuais, comboios eficientes ou parques dissuasores com capacidade real à entrada das cidades.

Mais do que ineficaz, esta abordagem é profundamente elitista e excludente. Quem pensa a cidade desenha-a para o jovem adulto saudável de mochila às costas, esquecendo os idosos, as pessoas com mobilidade reduzida (onde fica aqui a preocupação com a mobilidade?), as famílias ou quem trabalha por turnos. Para todos estes, a utopia pedonal não é sinónimo de qualidade de vida; é sinónimo de exclusão e complicação da rotina.

A verdadeira mobilidade tem de ser sobre inclusão, liberdade de escolha e eficiência de circulação. Quando uma política urbana reduz a capacidade de um cidadão se mover com dignidade no tempo devido, não está a promover o futuro — está a gerar imobilidade e frustração.

Precisamos de falar sobre mobilidade sem dogmatismo: antes de tirarmos o carro ao cidadão, é preciso dar-lhe uma alternativa que não destrua a sua rotina diária. A transição faz-se com planeamento e investimento, não com propaganda e retaliação.

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