A Stellantis admitiu publicamente que a Abarth necessita de voltar a incluir motorizações de combustão interna na sua gama para assegurar a viabilidade comercial e responder às exigências dos seus clientes. Contudo, o grupo automóvel enfrenta agora um enorme desafio de engenharia: os motores a gasolina de alta performance simplesmente não cabem na arquitetura do atual Fiat 500.
Em declarações à imprensa especializada, nomeadamente à publicação francesa L'Argus, Olivier François, CEO global da Fiat e da Abarth e responsável executivo no grupo Stellantis, assumiu sem rodeios a alteração de rumo da empresa. "Continuo convencido de uma coisa: a Abarth precisa de, pelo menos, um modelo a gasolina na sua gama", declarou François, reforçando de forma categórica: "A Abarth precisa de motores a combustão. É muito claro. Estamos a trabalhar nisso." Esta tomada de posição assinala uma viragem relevante após a marca ter anunciado uma transição exclusivamente elétrica.
A estratégia de eletrificação total da Abarth tinha sido um dos pilares do plano estratégico "Dare Forward 2030", concebido e implementado pelo ex-CEO da Stellantis, o português Carlos Tavares. A diretriz estabelecia que todas as vendas de automóveis de passageiros do grupo na Europa seriam exclusivamente elétricas até ao final da década. Sob essa orientação, a Abarth descontinuou os históricos modelos a combustão 595 e 695, substituindo-os pelos novos Abarth 500e e 600e, na expectativa de liderar a chamada mobilidade desportiva sustentável e cumprir as rigorosas metas europeias de emissões de dióxido de carbono.
Só que a aceitação do público ficou consideravelmente aquém das expectativas, afastando a base tradicional de entusiastas da marca do Escorpião, habituada ao som mecânico, à capacidade de alteração (tuning) e à emoção de condução característica de um pequeno carro desportivo com propulsor a combustão.
Reconhecendo que a vontade de regressar aos motores térmicos esbarra em limitações físicas imediatas, Olivier François foi transparente quanto aos obstáculos no modelo mais emblemático da marca: "O 500 é difícil".
A atual geração do Fiat 500 foi projetada prioritariamente como um veículo elétrico nativo. Embora a engenharia da Stellantis tenha conseguido adaptar um pequeno motor a gasolina de 1,0 litro e 70 cv (FireFly) para a versão Fiat 500 Ibrida, esse débito de potência é manifestamente insuficiente para os padrões de desempenho exigidos por um modelo Abarth - o 500 híbrido "civil" é aliás conhecido por ter a aceleração dos 0 aos 100 mais lenta da sua gama.
Por outro lado, o antigo bloco 1.4 T-Jet sobrealimentado deixou de cumprir as exigências europeias de emissões e não é fisicamente compatível com o reduzido espaço do novo chassis. A alternativa de utilizar motores turbo modernos do grupo, como o 1.2 PureTech, exigiria intercoolers, radiadores adicionais e tubagens de maior dimensão, impossíveis de acomodar no cofre do motor sem um dispendioso redesenho integral da secção dianteira.
Perante esta limitação técnica na carroçaria do 500, Olivier François admitiu que a solução poderá ter de passar por outras vias dentro do ecossistema da Stellantis. "Poderá vir a ser na próxima geração do 500, mas há outras opções em cima da mesa", disse o executivo, sem entrar em detalhes. Mas segundo os observadores do meio, entre os cenários alternativos pondera-se o recurso a plataformas modulares de maior dimensão, como a arquitetura Smart Car do novo Fiat Grande Panda, ou o aproveitamento do conhecimento operacional da Abarth na América do Sul, onde a marca comercializa com sucesso os modelos Pulse Abarth e Fastback Abarth com motorizações a combustão de alta potência.
O caso da Abarth reflete, assim, a complexidade de equilibrar as metas regulamentares de descarbonização com a viabilidade económica e as preferências reais dos consumidores.
O recuo estratégico da Stellantis demonstra que a transição energética no segmento dos automóveis desportivos exige flexibilidade industrial e soluções técnicas que nem sempre acompanham o ritmo dos planos estratégicos corporativos e políticos.

