Andrea Kimi Antonelli assinou este domingo uma das mais notáveis recuperações da história da Fórmula 1 ao vencer o Grande Prémio de Itália, no Autódromo Nazionale de Monza.
Despromovido ao 19.º lugar da grelha de partida devido à substituição de componentes da unidade motriz da Mercedes, o jovem piloto de Bolonha protagonizou uma corrida de ataque implacável, superando o colega de equipa George Russell a três voltas do final para selar uma dobradinha da equipa de Brackley — com uma margem de 3,857 segundos sobre o britânico — e encerrar um interregno de seis décadas sem vitórias italianas em casa, façanha que pertencia a Ludovico Scarfiotti desde 1966.
No terceiro lugar, a 14,718 segundos do vencedor, Max Verstappen completou o pódio ao volante do monolugar da Red Bull Racing.
"É absolutamente inacreditável", admitiu Antonelli após cruzar a linha de meta com quase quatro segundos de vantagem. "Sabíamos que tínhamos ritmo, mas começar de 19.º e vencer aqui, perante este público, é algo com que só podia sonhar. Quebrar este jejum de 60 anos em casa é uma honra indescritível."
Tensão na Ferrari e bandeira vermelha na Parabolica
A corrida começou a um ritmo frenético e desfavorável para a equipa da casa. Embora Pierre Gasly (Alpine) tenha arrancado da pole position, George Russell assumiu a liderança de imediato na abordagem à Variante del Rettifilo.
Atrás de si, os dois monolugares da Scuderia Ferrari envolveram-se numa disputa quase fratricida. Ao tentar conter o ataque interior de Lewis Hamilton na transição da primeira chicane, Charles Leclerc fechou a trajetória e (na perspetiva deste) empurrou o britânico para a gravilha, remetendo o heptacampeão mundial para o oitavo lugar. A reação de Hamilton pelo rádio foi inflamada: "O Leclerc empurrou-me para fora de pista"!, queixou-se Hamilton aos engenheiros de Maranello.
O revés na escuderia encarnada agudizou-se de forma dramática na segunda volta. Com perda evidente de rendimento em reta — atribuída preliminarmente a inconsistências no fluxo de potência do sistema híbrido —, Leclerc foi superado sucessivamente por Gasly e Verstappen. Ao tentar resistir a Oscar Piastri na entrada da Curva Alboreto (Parabolica), o SF-26 tocou na faixa pintada exterior, perdeu subitamente a sustentação traseira a mais de 230km/h e embateu violentamente contra as barreiras de proteção.
O acidente destruiu a barreira de pneus e forçou a direção de prova a interromper a corrida com bandeira vermelha no final da volta 3. Leclerc abandonou imediatamente o habitáculo pelos próprios meios, mas sentou-se na gravilha visivelmente atordoado, tendo sido conduzido ao Centro Médico do circuito.
Embora os primeiros exames tenham excluído fraturas, o monegasco revelou que o choque afetou a sua capacidade visual nos minutos que se seguiram ao impacto. "O pescoço estava bem, o problema foi apenas a visão no início", explicou depois Leclerc aos jornalistas. "O olho direito não estava a dar-me uma visão nítida logo a seguir ao impacto, e isso foi o que mais me preocupou ao sair do carro. Agora já está tudo normal, mas sinto dores pelo corpo, o que é natural."
O piloto adiantou ainda que realizará testes complementares nas próximas 24 horas para garantir a sua presença na ronda seguinte, em Madrid, manifestando ainda a frustração pelo desfecho: "Suspeito de uma anomalia na entrega de potência, mas é extremamente frustrante abandonar assim em Monza. Não posso mudar o resultado; temos de olhar em frente."
A cavalgada de Antonelli
Após os trabalhos de reparação das barreiras, os comissários autorizaram uma segunda partida parada. Russell aguentou a liderança na frente de Gasly e Verstappen, mas todas as atenções convergiram rapidamente para o W17 de Antonelli.
Valendo-se do andamento superior da Mercedes e de um ritmo de corrida impressionante, o italiano ultrapassou carros em série. Na 10.ª volta já ocupava a quinta posição; à 13.ª ascendeu ao pódio e, na 16.ª volta, desfez-se de Max Verstappen para chegar ao segundo posto. O duelo direto com Russell eclodiu entre as voltas 18 e 20, com trocas de ultrapassagens sob fortes aplausos das bancadas (os tiffosi da Ferrari aplaudiram o piloto da Mercedes como se fosse um deles) antes do início da primeira janela estratégica de paragens nas boxes.
O sinal para a viragem definitiva do Grande Prémio sucedeu à 31.ª volta, na sequência da ativação do Virtual Safety Car. Perante a neutralização, a Mercedes dividiu abordagens: manteve Russell em pista para defender a liderança com compostos duros usados e chamou Antonelli para colocar um jogo novo de pneus médios. A Ferrari replicou a opção de Russell com Hamilton, deixando ambos vulneráveis nas voltas derradeiras.
Do susto na gravilha ao triunfo definitivo
Com borracha mais macia e eficiente, Antonelli regressou no sexto posto a 15 segundos da dianteira, mas imprimiu uma cadência insustentável para a concorrência, rubricando voltas mais rápidas sucessivas. Ultrapassou Hamilton e Piastri com relativa facilidade, colando-se à asa traseira de Russell à 46.ª volta.
Por essa altura, os pneus duros do piloto britânico apresentavam já severos sinais de degradação estrutural e fortes vibrações. Ciente da desvantagem do companheiro, a Mercedes pediu contenção mútua, mas o ataque foi inevitável. Na volta 49, Antonelli tentou surpreender Russell pelo exterior na travagem para a primeira chicane, bloqueou as rodas e saiu momentaneamente para a escapatória de gravilha, cedendo cerca de dois segundos.
A recuperação do italiano foi imediata. Com tração superior à saída da Parabolica na volta seguinte, Antonelli utilizou a asa móvel no início da volta 50 para ultrapassar Russell por dentro na reta da meta, consumando a liderança a três voltas do final.
Russell cortou a meta na segunda posição, a 3,857 segundos do companheiro de equipa, e minutos depois, reconheceu a impossibilidade de conter o ataque: "Estou obviamente desapontado por perder a vitória tão perto do fim", lamentou o britânico. "Os meus pneus duros estavam completamente destruídos nas últimas voltas e já sofria com vibrações severas. Não tínhamos margem para defender contra o Kimi com borracha fresca. Ainda assim, uma dobradinha da equipa em Monza é um resultado de enorme valor."
No último lugar do pódio, a 14,718 segundos de Antonelli e a cerca de dez segundos de Russell, Max Verstappen valorizou os pontos amealhados numa pista tradicionalmente desafiante para o monolugar da Red Bull: "Extraímos o máximo absoluto do carro, hoje. Monza nunca foi o nosso traçado mais favorável, mas mantivemo-nos longe dos problemas, aproveitámos as paragens e conseguimos um pódio muito sólido. A Mercedes esteve noutro patamar em termos de ritmo."
Lewis Hamilton, o único Ferrari em pista, conseguiu recuperar até ao sexto posto, atrás dos McLaren de Lando Norris e Oscar Piastri, mas sem ritmo para contrariar os líderes após a estratégia de paragens tardias.

