As novas combinações cromáticas, de azuis e dourados, parecem saídas de um catálogo de colecionador de 1977.

Está aí a ‘nova’ Kawasaki Z650RS: com renovado esquema de cor e sem mudar um parafuso

As primeiras unidades chegam a Portugal em outubro, por 8795 euros, mas já é possível encomendar a neo-retro nipónica na rede oficial de concessionários.
As novas combinações cromáticas, de azuis e dourados, parecem saídas de um catálogo de colecionador de 1977. FOTO: Kawasaki
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É em tudo igual às suas congéneres, mas as suas roupagens são inéditas e a estrear. A nova Kawasaki Z650RS aposta forte num visual neo-retro através de novas opções cromáticas – o nostálgico Metallic Ocean Blue com jantes raiadas em tom dourado ou a variante escurecida Black Ball (Ebony / Metallic Spark Black) –, e não falta quem não se importe de despender os 8795 euros que a mota custa, unicamente porque esta combinação de cores evoca a mística dourada dos anos 70.

Na gíria da indústria das duas rodas existe uma sigla que resume na perfeição este fenómeno de fim de estação: BNG (Bold New Graphics). Traduzido para português corrente: quando um construtor tem nas mãos uma mecânica mais do que paga, fiável e devidamente homologada, mas prefere não abrir os cordões à bolsa em investigação e desenvolvimento, basta uma lata de tinta fresca, um par de grafismos evocativos e um comunicado redigido em tom triunfal.

Ou pode dizer-se que num produto vencedor não se mexe, para não estragar. É uma questão de interpretação.

Seja como for, o truque neste segmento funciona quase sempre: a paixão visual fala mais alto.

Para o mercado europeu e nacional, a atualização de catálogo entra em vigor a partir de outubro, momento em que as novas unidades começam a ser distribuídas pela rede oficial.

Em Portugal, a representação e distribuição oficial da marca de Akashi está a cargo da Multimoto Motor Portugal, sediada em Oliveira de Azeméis, fazendo-se a aquisição através dos concessionários autorizados espalhados pelo continente e ilhas, onde já é possível sinalizar e encomendar as novas variantes.

Além disso, e à semelhança dos anos anteriores, o modelo mantém disponível o kit oficial de limitação a 35kW (48cv), tornando-se uma opção elegível e muito cobiçada por quem acabou de tirar a carta A2 e procura fugir ao visual hiperagressivo das streetfighters modernas.

ADN e mecânica: raízes na ER-6n e bom senso dinâmico

Por baixo do depósito, em gota, de 12 litros e do farol dianteiro perfeitamente circular em LED, o coração da máquina não guarda qualquer segredo. Trata-se do comprovadíssimo bicilíndrico paralelo de 649cc, DOHC de 8 válvulas com refrigeração líquida, cujas raízes remontam à veterana ER-6n lançada há duas décadas e que equipa hoje a Ninja 650 e a Z650 convencional.

Cumprindo as normas Euro 5+, debita 68cv (50,2kW) às 8000rpm e um binário máximo de 64Nm às 6.700rpm, revelando-se um motor desenhado não para arrancar o asfalto, mas para ser prático, dócil e sem sustos na vida real.

A ciclística – o equivalente ao chassis nas quatro rodas – replica a mesma cartilha de simplicidade eficaz, assentando numa estrutura em treliça de aço de alta resistência com uns magros 13,5kg. Com um peso contido de 187kg em ordem de marcha e uma altura de assento de apenas 800mm, revela-se extraordinariamente dócil em manobras a baixa velocidade e no trânsito urbano.

Na frente encontramos uma forquilha telescópica convencional de 41mm sem qualquer afinação, enquanto a traseira é confiada a um monoamortecedor com regulação de pré-carga.
Na frente encontramos uma forquilha telescópica convencional de 41mm sem qualquer afinação, enquanto a traseira é confiada a um monoamortecedor com regulação de pré-carga. FOTO: Kawasaki

Na frente encontramos uma forquilha telescópica convencional de 41mm sem qualquer afinação, enquanto a traseira é confiada a um monoamortecedor com regulação de pré-carga, ficando a travagem a cargo de um duplo disco dianteiro de 300mm com pinças de duplo pistão e ABS.

Ao mesmo tempo, e numa era em que os ecrãs digitais dominam tudo, a Z650RS preserva o trunfo de dois manómetros analógicos redondos com ponteiros físicos para velocidade e rotações, deixando apenas um pequeno ecrã LCD ao centro para a informação essencial de bordo – um detalhe que os puristas não se cansam de aplaudir.

A Z650RS preserva o trunfo de dois manómetros analógicos redondos com ponteiros físicos para velocidade e rotações.
A Z650RS preserva o trunfo de dois manómetros analógicos redondos com ponteiros físicos para velocidade e rotações.Kawasaki

O que diz a comunidade: entre a paixão estética e a birra do som

Basta uma ronda pelos grupos de proprietários e pelas comunidades no Reddit, como o r/Kawasaki e o r/SuggestAMotorcycle, para perceber o que move quem compra – e quem critica – esta máquina.

Por um lado, os elogios são quase unânimes quanto ao conforto ergonómico: a posição de condução mais vertical e com guiador mais largo e subido poupa as costas e os pulsos, surgindo amiúde o comentário de quem a comprou simplesmente por ser "linda" e não se parecer "um inseto transformer como a maioria das motos atuais".

A essa sedução visual junta-se a tranquilidade mecânica, já que o facto de o motor somar 20 anos de estrada é encarado pela maioria como um selo inabalável de fiabilidade e manutenção acessível.

Em contrapartida, a grande crítica dos entusiastas mais exigentes recai invariavelmente no temperamento mecânico. Muitos queixam-se de que o som e o pulsar de um bicilíndrico paralelo a 180 graus é incaracterístico, sem a melodia grave de um motor em V ou o uivo nobre de um quatro cilindros em linha, que celebrizou as verdadeiras Z dos anos 70 e a sua irmã Z900RS.

A somar a isso, condutores mais experientes apontam a modéstia de uma suspensão dianteira sem afinações, em detrimento de uma forquilha invertida, que ofereceria outro aprumo dinâmico quando o ritmo sobe em estrada de curvas.

Feitas as contas, a Kawasaki sabe exatamente o que está a fazer: a Z650RS não precisa de ser uma fera das pistas. Com o truque do modelo novo e um par de combinações cromáticas, que parecem saídas de um catálogo de colecionador de 1977, continua a ter argumentos de sobra para levar muitos motociclistas até aos concessionários.

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