Os condutores estão a atingir um ponto de rutura com a digitalização excessiva no habitáculo dos automóveis, rejeitando o excesso de ecrãs táteis e a complexidade das ajudas eletrónicas à condução. Uma conclusão que resulta de um estudo recente desenvolvido pela consultora multinacional J.D. Power, divulgado esta quinta-feira, 20 de agosto, em Troy, Michigan (EUA).
A investigação auscultou mais de 68 mil proprietários de veículos novos para perceber quais as tecnologias que trazem valor real e quais as que apenas geram frustração e perturbação na condução diária. A tecnologia mais criticada e considerada inútil pelos condutores a bordo é o ecrã dedicado ao passageiro dianteiro: cerca de 35% dos proprietários admitem que nunca o ligam e apenas 6% afirmam utilizá-lo de forma regular no quotidiano.
A presença destes painéis secundários de entretenimento no lugar do 'pendura' resultou numa taxa de 21,3 problemas reportados por cada 100 veículos, penalizando substancialmente a avaliação da qualidade e fiabilidade de várias marcas de luxo, avança o estudo anual 2026 U.S. Tech Experience Index (TXI) da J.D. Power.
Em simultâneo, os sistemas avançados de condução autónoma sem mãos (Nível 2 + Hands-Free) geraram mais reclamações de complexidade, avisos sonoros intrusivos e falsos alarmes do que os sistemas convencionais que exigem a manutenção do contacto físico com o volante. Os condutores auscultados relataram que as reações bruscas do veículo e o excesso de alertas provocam desconfiança, levando muitos utilizadores a desativar permanentemente as assistências à condução.
Em sentido oposto, as tecnologias mais valorizadas foram as que funcionam de forma discreta e sem exigir interação manual contínua, como a climatização automática inteligente, as câmaras de visualização de ângulo morto e os espelhos retrovisores digitais de alta definição, detalha a mesma investigação da consultora norte-americana.
A ilusão do ecrã e a poupança na linha de montagem
A proliferação de superfícies de vidro no tablier não respondeu a uma exigência genuína dos automobilistas, mas antes a uma estratégia de redução de custos de fabrico disfarçada de modernidade. Substituir dezenas de interruptores mecânicos, cablagens e moldes plásticos por um único painel tátil central e alguns comandos capacitivos permite aos construtores poupar somas assustadoras em cada unidade produzida.
Isso mesmo admitiu recentemente o próprio CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, ao referir que a produção de comandos táteis chega a ser 50% mais barata do que o desenvolvimento de seletores e botões físicos dedicados.
Essa 'facilidade' financeira para os construtores fez-se, no entanto, à custa de uma 'dificuldade' para o condutor. A transferência de funções vitais – como a regulação da temperatura, o desembaciador dos vidros ou o ajuste dos espelhos – para submenus táteis aumentou drasticamente a perturbação cognitiva ao volante.
Estudos de ergonomia e segurança rodoviária indicam que navegar num ecrã tátil enquanto se conduz obriga a desviar o olhar da estrada durante vários segundos vitais, ao contrário dos botões analógicos tradicionais que assentam na memória tátil e muscular do condutor.
Adicionalmente, os ecrãs dedicados ao passageiro revelaram-se redundantes, uma vez que a maioria dos ocupantes já transporta os seus próprios dispositivos pessoais, como smartphones e tablets, que oferecem uma utilização mais intuitiva e sem as limitações impostas pelos filtros de privacidade obrigatórios nos automóveis.
Pressionada pela regulação, a indústria faz marcha-atrás
O cenário de rejeição popular ganha agora, ainda por cima, uma força decisiva com a intervenção das autoridades de segurança rodoviária europeias. Desde janeiro deste ano, no âmbito dos seus novos protocolos de avaliação, o Euro NCAP (European New Car Assessment Programme — Programa Europeu de Avaliação de Novos Automóveis) passou a penalizar com a perda de pontos todos os veículos que não disponham de botões, seletores ou alavancas físicas independentes para cinco funções primárias: piscas, luzes de emergência, limpa-para-brisas, buzina e chamada de emergência (eCall).
Essa penalização traduz-se na não-atribuição da nota máxima de cinco estrelas de segurança. Uma perda de pontuação máxima que compromete seriamente o apelo comercial dos modelos, ao excluí-los do valioso mercado das frotas empresariais, no qual as cinco estrelas são um requisito obrigatório.
A combinação entre a insatisfação dos clientes e as exigências de homologação obriga os grandes construtores globais a rever o rumo do design de interiores. Marcas europeias e asiáticas que haviam apostado tudo na eliminação dos botões estão já a reintroduzir interruptores mecânicos, seletores rotativos e comandos físicos no volante dos seus novos modelos.
A era da saturação de menus e do vidro tátil cede assim o lugar ao regresso do essencial: um habitáculo onde a tecnologia serve a segurança e o conforto do condutor, e não o oposto.

