O fenomenal 2 CVO Citroen 2 CV foi a interpretação dada por Pierre Boulanger ao sonho de André Citroen – um carro simples, robusto e económico que permitisse aos agricultores franceses substituir os seus cavalos e carroças. Com tração e motor dianteiro (refrigerado a ar) e uma suspensão com capacidades para off-road ligeiro, graças ao curso longo para absorver as pancadas nos terrenos agrícolas, o 2 CV foi um verdadeiro todo-o-terreno da sua época. Apresentado no Salão Automóvel de Paris em 1948, foi produzido até 1990 em diversas gerações e versões, num total de 3,8 milhões de unidades (com todas as variantes, como o Ami ou a Dyane foram perto de 9 milhões). A última é portuguesa e saiu da linha de montagem da fábrica de Mangualde. O “chapéu de chuva com rodas” é a mais notável aplicação do princípio do minimalismo na construção de um automóvel no séc. XX e, como escrevia o escritor L.J.K Setright um carro de uma “racionalidade sem remorsos”.
A lendária robustez e fiabilidade é ilustrada pela deliciosa história das duas freiras francesas que levaram o seu Citroen 2 CV à revisão dos 50 mil quilómetros, informando o mecânico que o carro fazia uns barulhinhos. O mecânico foi dar uma volta com elas e percebeu que as freiras apenas utilizavam a primeira velocidade e não sabiam que era preciso meter óleo no motor. 50 mil quilómetros sem óleo e só com a primeira engrenada é mesmo obra do Altíssimo. O meu primeiro carroO carro mais importante da história da Citroen é também um dos quatro mais importantes automóveis do séc. XX – juntamente com o Ford T, Volkswagen Carocha e Mini. A primeira vez que andei num, fiquei irremediavelmente apaixonado pela sua simplicidade e graça. Era vermelhinho e teimoso – custava a pegar de manhã, tal como eu, antes do segundo café. O carro era do meu amigo Luís Neves, e lembro-me perfeitamente de atravessarmos a Ponte 25 de Abril, de capota enrolada, rumo o Sol da Caparica ao som da música dos “Peste e Sida”.
Muitas outras pessoas terão com o Citroen 2 CV outras histórias de afeto, memórias e momentos que nunca se esquecerão, porque os carros sentimentais, como este, são muito mais do que um meio de transporte, são um companheiro da vida. Alguns carros são como músicas que nos remetem para momentos das nossas vidas – o primeiro amor, a primeira road trip, um piquenique com os avós, o dia em que alguém querido nos morreu e tivemos de guiar atrás da carrinha funerária, enfim, em quase todos os momentos determinantes das nossas vidas há um carro por perto e que por isso faz parte da nossa história. É por isso que sempre gostei da Citroen, independentemente de fazer carros bons ou maus (e acreditem já fez alguns beruchas) porque é uma marca que faz parte da minha vida. Lembro-me de atravessar a Ponte 25 de Abril (sempre ela) com o meu pai a guia um Mehari e a minha mãe aos berros a dizer – Ó Quim, olha que isto ainda vai levantar voo. Lembro-me das noitadas malucas com o meu amigo e compadre Luís Pinheiro no seu Dyane a cair de podre e lembro-me do meu primeiro e inesquecível carro – o Citroen GS – comprado a meias por 20 contos com o meu amigo Noné. O sofá com rodas, tal o conforto de rolamento, era o petit nomdo DS cor de café com muito leite. Nesse DS era impossível não me sentir um Belmondo de 20 anos – A ir para a faculdade a fazer ratéres como uma máquina de guerra na 24 de Julho, a usá-lo como carro de campanha com cartazes e megafone da lista anarquista Jasmim que concorreu à Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (impronunciável ISCSP). Lembro-me de dormir nele, de comer nele, de fazer amor nele… Lembro-me de com ele fazer a primeira viagem à Beira Baixa, numa tarde de verão, feliz e imparável, com a estrada e a vida pela frente, com paragem no Couço para as lendárias sandes de carne assada da terra mais comunista de Portugal. Não há amor como o primeiro, pelo menos no que respeita a carros. O Citroen GS foi o meu primeiro grande amor. Um dia traiu-me com a falta de óleo na suspensão, ficou especado numa rua em Odivelas e vendi-o ao mecânico da esquina por 10 contos – 5 para mim, 5 para o Noné. Ao longo da vida conduzi muitos carros da marca do double chevron– quase todos os modelos dos últimos 15 anos – mas daqueles que ainda me lembro melhor são os com os quais vivi grandes momentos – ir a Arganil ver o Rali de Portugal num diabólico Visa GTI, depois fazer Lisboa-Algarve no frenético e falso AX GT. O conforto rolante de um grande CX para o Minho (com o meu pai a guiar) ou o inesquecível Citroen BX – o supra-sumo do conforto da sua época. Outra grande experiência foi poder conduzir quatro ou cinco diferentes versões dos Bocas de Sapo no tempo em que trabalhei no “Jornal dos Clássicos” quando um colecionador abriu as portas da sua garagem de Ali Bábá e em vez de ter lá os habituais modelos de várias marcas tinha uma coleção mono-boca-de-sapo, mais de 20 de todas as formas e feitios – carrinhas, descapotáveis, ambulâncias, eu sei lá. Também me lembro de uma vez vir da escola com a minha mãe e ela apontar-me ali no Campo Grande para um belo Boca de Sapo estacionado à sombra de um plátano – lá dentro estava um senhor de boné ao volante e outro mais rechonchudo, recostado ao lado a dormir uma sesta. O senhor rechonchudo devia estar-se a sentir observado, ergue a cabeça sonolenta e fez-me um aceno. A minha mãe perguntou-me: – Sabes quem é? – É um boca-de-sapo. – Não, é o Mário Soares.