Se esbarramos com alguém no supermercado ou na rua, pedimos logo desculpa com um sorriso meio envergonhado. Faz parte da nossa natureza evitar chatices e tentarmos ser minimamente simpáticos uns com os outros. Mas basta rodar a chave do carro (ou carregar no botão Start) para sofrermos uma transformação imediata. Ao fecharmos a porta, o carro vira uma espécie de fortaleza móvel e, de repente, toda a gente se esquece de como se diz "obrigado".
Até há bem pouco tempo, deixar alguém passar numa rua apertada ou facilitar a entrada numa fila rendia um agradecimento imediato: uma mão levantada no retrovisor ou aquele piscar rápido dos "quatro piscas". Era o código de honra de quem conduz.
Hoje, a regra é a total indiferença.
Deixamos o outro carro passar e ele mete-se à nossa frente como se estivesse apenas a reclamar um direito seu. Vemos constantemente carros atravessados a bloquear faixas laterais ou cruzamentos, impedindo quem quer simplesmente passar, tudo porque alguém se recusa a perder um milímetro na sua fila. E porquê? Porque abrigados na falsa segurança de andarmos blindados na estrada, ficámos virados só para o nosso umbigo. O automóvel deixou de ser uma máquina que operamos no espaço público, para passar a ser a nossa sala de estar com rodas, onde os outros condutores são vistos apenas como estorvos do lado de fora da janela.
Muitos dirão que este problema não é de agora e que é apenas falta de civismo, mas a verdade é que a tão desejada evolução automóvel nos tem levado a um ponto cada vez maior de egocentrismo.
O mais fácil é culpar o stress do dia a dia, mas e se o verdadeiro culpado for o facto de os carros hoje serem bons de mais? O fim da simpatia no trânsito acompanha na perfeição o nível de isolamento que os nossos carros nos dão. Quando conduzíamos viaturas um pouco mais analógicas, onde ouvíamos o motor e sentíamos a estrada de forma direta, tínhamos a noção clara de que estávamos na rua a partilhar espaço e vulnerabilidades. Hoje, vamos tão enfiados entre ecrãs gigantes, vidros grossos que cortam o ruído de fora e sistemas que até travam e viram o volante por nós, que perdemos o contacto com a realidade. Deixamos de pensar sequer no medo do embate na viatura da frente, porque o carro "inteligente" vai pensar nisso por nós. Esta arrogância não é só má-criação; é o resultado da sensação de poder e isolamento que a engenharia moderna nos dá. Esquecemo-nos de que lá fora estão pessoas reais e passamos a comportar-nos no trânsito como num videogame na hora de ponta.
Podemos pedir aos fabricantes que continuem a encher os carros com tecnologia para travarem sozinhos antes de um acidente ou para nos lerem as mensagens a caminho do trabalho. Mas, com tanta inteligência nos carros de hoje em dia, talvez humanizar um pouco mais as viaturas e quem as conduz fosse uma excelente ideia.
A verdadeira mudança na mobilidade não custa milhares de euros num pacote de extras de luxo nem depende de baterias elétricas topo de gama. Custa apenas o segundo que demora a levantar a mão do volante ou a dar um toque no botão dos quatro piscas. No meio de tanta insonorização e tecnologia de ponta, a funcionalidade mais importante que podemos oferecer a quem partilha a estrada connosco é um simples e velho "obrigado".