Opinião Motor24

Por que gostamos tanto de nos endividar para comprar carros?

Margarida Vaqueiro Lopes

Os novos contratos de crédito automóvel atingiram valores recorde no passado mês de março, com os portugueses de olho, sobretudo em veículos novos. Números do Banco de Portugal mostram que foram contratualizados 22.373 novos créditos automóvel nesse mês, um valor nunca visto nos mais de 13 anos para os quais há registos – desde janeiro de 2013. Também o montante global contratado bateu recordes: 110,3 milhões de euros.

Numa altura em que tanto se fala de mobilidade e sustentabilidade, estes dados não deixam de me surpreender. É que, se por um lado, estamos todos a sair menos de casa – olá, possibilidade de trabalho híbrido ou remoto –, temos combustíveis e portagens a preços que só pesam nas nossas carteiras e vivemos num mundo, alegadamente, mais consciente do impacto ambiental da utilização automóvel, como é que continuamos a comprar carros? E mais, tendo em conta as dificuldades crescentes das famílias portuguesas para fazer face às despesas, que fascínio é este que continuamos a ter por carros novos?

Se há algo que me lembro de ouvir quando ainda não tinha idade para entender contas, sequer, é uma das frases que nunca deixa de estar certa: “Um carro novo desvaloriza assim que tem uma roda fora do stand”. Que é como quem diz: como investimento, é péssimo. Não faz sentido. No mesmo sentido, é um poço de despesas: seguros, revisões, IUC, eventuais acidentes, combustível, portagens, estacionamento, pneus…enfim. Não sei se já alguma vez fizeram uma folha de cálculo em que anotaram tudo o que um carro consome ao final de um ano, mas eu já. E o que descobri é que o dinheiro que se gasta num carro em 12 meses dá perfeitamente para pagar táxis – Uber, Bolt, o que quiserem – e alugar carros sempre que necessário. Para quem vive numa cidade, onde está a grande maioria dos automóveis, aliás – até sai mais barato não ter um automóvel.

O problema, parece-me, é que nós temos também um país que usa os carros como se fossem prémios. Adoramos exibir os nossos automóveis, porque, de alguma forma, eles refletem o nosso sucesso financeiro na vida – exceto quando temos o carro e dívidas de tal ordem que um dia podemos ter de o entregar para as pagar, o que acontece mais vezes do que pensamos.

Não raras vezes, aliás, questionamos a opção de alguém que não tem carro ou não o usa regularmente, como se fosse problemático. Olhamos para os automóveis como se eles dissessem algo sobre quem os tem, esquecendo de que pode ser um sinal tão enganador quanto tantos outros – como nos mostram atá aqueles dados sobre o crédito automóvel. São poucas as pessoas que pensam num automóvel como aquilo que ele é, efetivamente: um meio de transporte que tem como objetivo levar-nos do ponto A ao ponto B, em segurança e com conforto, e sem ter de passar qualquer outra mensagem a não ser a de que temos mobilidade para o fazer.