Opinião Motor24

Ode aos (verdadeiros) carros

Raquel Baptista Lopes

Houve um tempo, não muito distante, em que bastava um piscar de olhos, uma sombra projetada no asfalto ou um feixe de luz ao longe para sabermos exatamente quem se aproximava. O recorte de um capot ou o traço da linha lateral não eram apenas metal moldado ao acaso; eram uma assinatura. Hoje, dou por mim a olhar para as estradas e a sentir que fomos todos convidados para um baile de gala onde, ironicamente, toda a gente decidiu vestir o exato mesmo fato cinzento.

É prático e funcional, sem dúvida. Mas é, acima de tudo, mortalmente aborrecido.

A velocidade não é o problema, nem sequer o silêncio. O verdadeiro drama é que os carros estão a perder o seu sotaque.

 O luxo e a paixão automóvel sempre viveram da sua geografia e do seu feitio. Um Aston Martin nunca precisou de gritar para dominar uma sala; a sua elegância britânica, feita à medida, sempre escondeu uma ferocidade contida que fazia o trabalho por si. O Maserati trazia a teatralidade italiana para a estrada, um drama operático em quatro rodas, enquanto o Jaguar assumiu sempre aquele charme vilanesco de quem quebra as regras com um sorriso nos lábios. O Range Rover impunha-se com a nobreza de quem pisa o lodo do campo e o asfalto de uma passadeira vermelha com a mesma arrogância intacta. E quando a física era desafiada ao limite absoluto, tínhamos a frieza alienígena e cirúrgica de um McLaren, ou a opulência megalómana de um Bugatti. Eram máquinas com um código postal na alma. Com uma identidade inconfundível.

Mas a eficiência mudou as regras do jogo. Na passagem acelerada para a era elétrica e na obsessão pelos consumos e autonomia, os construtores curvaram-se perante um novo deus absolutista: o túnel de vento. A aerodinâmica não tem nacionalidade, não tem sentido de humor e, francamente, não percebe de estilo. Ditou que a forma perfeita para rasgar o ar é a gota de água, e o resultado é uma homogeneização visual galopante. Hipercarros, sedans e SUVs começam a partilhar a mesma silhueta polida, desenhada apenas para escorregar pelo ar e cortar o atrito. Aos poucos, estamos a trocar a sedução estética pela monotonia funcional.

Se a aceleração instantânea e o silêncio já foram democratizados — hoje, qualquer familiar a baterias arranca com a fúria que dantes pertencia apenas aos deuses do asfalto —, o que restará ao hiper-luxo para se distinguir?

O futuro do luxo automóvel não estará na tecnologia mais avançada, mas sim na pura desobediência aerodinâmica.

Num mundo onde todos os carros são forçados a ser eficientes bolhas otimizadas, a verdadeira afirmação de poder será o direito à ineficiência estética. As grandes casas automóveis vão perceber que quem as procura não quer um eletrodoméstico imaculado; quer uma obra de arte indomável. Veremos, a curto prazo, o regresso de ângulos impossíveis, silhuetas dramáticas e proporções ilógicas, desenhadas pura e simplesmente pela glória do design. O derradeiro símbolo de estatuto será pagar o preço de ter menos autonomia, apenas para ter um carro que recusa, categoricamente, curvar-se ao vento. A forma vai voltar a esmagar a função.

Apaixonarmo-nos por um automóvel nunca foi um ato racional. Apaixonamo-nos pelas arestas, pelo carisma e por aquela pitada de irracionalidade que nos faz virar a cabeça na rua. A eficiência pode até mover o mundo para a frente, mas será sempre a teimosa e imperfeita personalidade que nos continuará a fazer sonhar. Porque, no fim de contas, um carro perfeito apenas nos leva ao destino, mas é um carro com alma que nos faz querer conduzir.