Opinião Motor24

O verdadeiro teste aos carros elétricos não é na autoestrada, é na reunião de condomínio

Raquel Baptista Lopes

A narrativa em torno do automóvel elétrico foca-se quase sempre na estrada: o fim da ansiedade com a autonomia, a potência imediata dos motores e a modernidade da tecnologia a bordo. Mas a euforia que se vive à saída do concessionário dissipa-se rapidamente quando se chega a casa. O verdadeiro teste à resiliência do condutor não será encontrar um posto de carregamento livre na autoestrada a meio de uma longa viagem. Será enfrentar a Dona Maria do 3.º Direito e o Sr. Vítor do rés-do-chão na próxima assembleia de condóminos.

A transição energética esbarra, hoje, na mais analógica, passional e complexa das instituições portuguesas: o condomínio.

O Estado fez a sua parte no papel e percebeu onde estava o grande obstáculo. Uma das grandes novidades dos atuais apoios ambientais é o financiamento em 80% (até 1000 euros) para a instalação de carregadores em garagens de edifícios multifamiliares, juntamente com a aliciante isenção de tarifas da EGME (Entidade Gestora da Rede de Mobilidade Elétrica) durante dois anos.

É um pacote generoso, mas num país onde a esmagadora maioria vive em apartamentos, a lei do "direito à tomada" abriu uma verdadeira caixa de Pandora.

A questão central que incendeia as reuniões culmina, quase sempre, num desabafo cru e compreensível por parte de quem se sente prejudicado: "Não aceito pagar quotas extra para atualizar quadros elétricos ou instalar dispendiosos sistemas de segurança contra incêndios para uma tecnologia que não uso, da qual sou contra, só para que dois ou três vizinhos possam ter os seus elétricos à carga."

E a verdade é que a razão lhes assiste.

Por que há de o fundo de maneio de todos subsidiar a infraestrutura de alguns, ou exigir quotas extraordinárias do orçamento do condomínio? A reboque da carteira, vem o pânico da segurança. A perspetiva de ter veículos a puxar energia em simultâneo durante a madrugada nos pisos inferiores de estacionamento levanta dúvidas legítimas. O administrador do condomínio vê-se, de repente, a braços com a responsabilidade civil (e até criminal) de aprovar uma infraestrutura de alta potência para a qual o prédio simplesmente não foi desenhado, há 20 ou 30 anos. A linha entre o direito individual à mobilidade verde e a imposição de custos e riscos à segurança coletiva tornou-se num campo de minas.

A solução para desatar este nó cego de injustiça financeira e risco legal não passa por distribuir cartilhas pedagógicas aos administradores ou por forçar a boa vontade entre vizinhos. Passa por retirar o condomínio desta equação por completo.

Precisamos de olhar para as garagens com a mesma lógica com que olhamos para as telecomunicações.

Quando a fibra ótica chegou aos edifícios portugueses, nenhum vizinho teve de votar se o prédio devia pagar obras conjuntas, e quem não queria internet não gastou um cêntimo com a infraestrutura. A mobilidade elétrica precisa urgentemente do modelo "Operador de Garagem". Em vez de obras individuais, caóticas e que sobrecarregam as contas do prédio, empresas especializadas deveriam assumir a eletrificação inteligente de todo o parque de estacionamento a custo zero para o condomínio.

Estas entidades garantem o cumprimento escrupuloso de todas as regras legais e de segurança contra incêndios, gerem o balanceamento dinâmico de carga (para nunca fazer disparar o quadro comum) e faturam o consumo e a infraestrutura diretamente e apenas a quem a utiliza. O risco legal e o peso financeiro passam do condomínio para quem fornece e para quem consome.

Se queremos que Portugal mantenha o pé no acelerador da descarbonização sem provocar guerras civis no vão de escada temos de desativar este travão estrutural. A revolução elétrica só cumprirá o seu propósito no dia em que ligar o carro à corrente na nossa garagem for uma ação tão simples, segura e inquestionável como ligar o router da internet na sala de estar — e paga única e exclusivamente por quem dela usufrui.