Opinião Motor24

Encarnado que rasga o cinza: o otimismo de Spielberg e a alma de ‘Disclosure Day’

Ricardo Simões Ferreira

Num cinema quase totalmente dominado por paletas dessaturadas, tons metálicos e uma prudência narrativa quase clínica, o universo de Disclosure Day (o mais recente filme de Steven Spielberg, agora a chegar ao circuito digital) surge como um espelho da nossa própria época: um mundo cinzento, cauteloso e receoso de grandes atos expansivos, onde o conformismo estético e comportamental se converteu na norma de segurança. Mas é contra este pano de fundo de contenção que o automóvel da protagonista (interpretada por Emily Blunt) recusa ser mero cenário, tornando-se o primeiro prenúncio da visão final do realizador para a obra.

Aqui, o Alfa Romeo Giulia em Rosso Alfa não é apenas o veículo de Margaret Fairchild; é uma extensão da sua identidade, um motor dramático e uma personagem com arco próprio. A sua cor vibrante funciona como uma declaração de intenções que se entenderia antes de qualquer linha de diálogo ser proferida: ali está alguém que recusa a invisibilidade.

Essa personalidade manifesta-se no próprio comportamento em estrada. O Giulia não é um transporte passivo — é uma máquina que "pede" para andar depressa. A tendência da protagonista para ultrapassar os limites confere-lhe uma dimensão de humanidade e rebeldia que nos diz imediatamente tudo sobre ela. Mais do que vaidade estética, nos momentos de perigo real, é a agilidade do italiano que viabiliza a sobrevivência. O seu sacrifício final — levado ao limite e destruído no cumprimento da missão — cumpre um destino heroico. Não assistimos à perda de um pedaço de chapa, mas à despedida de um parceiro de viagem.

Esta recusa em aceitar a cinzenta contenção do mundo atinge o seu auge na sequência final de Disclosure Day, onde fica exposta a verdadeira natureza da obra. Steven Spielberg, toda a vida chamado o realizador que nunca cresceu, mantém-se aqui como o eterno otimista — ou o incorrigível ingénuo.

No desfecho do filme, a emissão televisiva que revela a verdade ao planeta é passada ao mundo na íntegra, sem ser cortada para publicidade ou, o que seria hoje em dia ainda mais inevitável, para o comentário de "especialistas". No nosso mundo real, a imagem pura não duraria mais do que alguns segundos: viriam imediatamente vozes dizer que as imagens apresentadas eram absolutamente falsas, ou uma verdade divina; culpa da cultura imperialista dos EUA, ou uma necessidade de defesa nacional; razões que obrigavam a criar um novo regime, ou a entrincheirarmo-nos no atual…

Ao permitir que a mensagem chegue limpa e sem filtros ao espectador, Spielberg comete uma bela improbabilidade sociológica. Mas é precisamente aí que reside o coração do filme. Do Rosso Alfa que rasga a monotonia das estradas à emissão que fura o bloqueio da desinformação, Disclosure Day (O Dia da Revelação, em Portugal) defende que a paixão, a individualidade e a verdade nua ainda têm lugar num mundo de ceticismo — mesmo que o preço a pagar seja arder no processo.

Resta-nos ter esperança de que Spielberg tenha razão. Que consigamos evitar a autodestruição se soubermos, finalmente, ouvir… e ver: ouvir-nos uns aos outros, desde logo; e ver o que se passa à nossa volta com a objetividade dos factos e não através do filtro daquilo que gostaríamos que fosse. Só assim poderá existir um chão comum para debatermos as diferenças que nos separam, sem medo. Para que cada um de nós possa ser um apontamento Rosso — ou de outra cor qualquer — a acelerar em busca da felicidade.