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Stellantis pede desculpa pelo motor 1.2 PureTech e rompe com o período Carlos Tavares

O novo presidente executivo do grupo, Antonio Filosa, assume os erros do passado nos motores PureTech e nos airbags Takata, prometendo colocar a qualidade à frente das margens financeiras agressivas.

Ricardo Simões Ferreira

Num gesto pouco comum na indústria automóvel e que marca uma viragem evidente no rumo da Stellantis, o novo presidente executivo do consórcio, Antonio Filosa, dirigiu um pedido formal de desculpas aos clientes lesados pelos problemas registados no motor a gasolina 1.2 PureTech e pelas falhas associadas aos airbags da Takata.

Em declarações ao diário francês Le Parisien, à margem do Salão Automóvel de Paris, Filosa abordou de frente uma das maiores crises de reputação do grupo: "Em primeiro lugar, gostaria de lhes apresentar as nossas desculpas pelos problemas passados com que se depararam."

Mais do que uma simples admissão de culpa, a intervenção do sucessor do português Carlos Tavares assinala uma rutura clara com a doutrina que definiu os últimos anos do grupo multinacional. Durante a liderança de Tavares, a Stellantis distinguiu-se pela obsessão na contenção de custos e pela preservação de margens operacionais recorde — uma estratégia que deixou marcas profundas na relação com a rede de distribuição, com os fornecedores e, sobretudo, com os clientes finais, frequentemente confrontados com recusas de garantia ou atrasos na assunção de defeitos de fabrico.

"Salas de guerra" para resgatar a fiabilidade

Com o intuito de estancar a perda de confiança que afetou marcas nucleares como a Peugeot, a Citroën e a Opel, Filosa revelou que a prioridade imediata da empresa passou a ser a fiabilidade.

O gestor italiano anunciou a criação de cerca de uma centena de equipas dedicadas exclusivamente à resolução de problemas de qualidade (chamou-lhes mesmo "quality war rooms"), distribuídas por fábricas e centros técnicos na Europa (sobretudo França e Itália) e na América do Norte. Estas equipas reúnem diariamente engenheiros de desenvolvimento, fornecedores e responsáveis de produção para identificar falhas precoces e ajustar processos em tempo real.

De acordo com o executivo, este esforço conjunto terá permitido alcançar já uma melhoria interna da qualidade na ordem dos 30% desde o arranque de 2026.

A nova orientação estratégica passa também por abdicar temporariamente de margens de lucro "excessivas" para devolver competitividade e acessibilidade ao portefólio, ao mesmo tempo que o grupo canaliza 60 mil milhões de euros para o lançamento de 60 novos modelos no âmbito do plano Fast Lane 2030.

Desconfiança e queixas persistem entre os clientes

Apesar da mudança de tom e da postura pública mais humilde do novo homem-forte da Stellantis, as declarações foram acolhidas com acentuado ceticismo junto dos proprietários e de comunidades especializadas do setor.

Para muitos automobilistas, as desculpas surgem tarde e pecam pela falta de soluções práticas para quem já suportou avarias onerosas. As queixas continuam a focar-se na relutância dos serviços pós-venda em assumir a totalidade das despesas, com recusas motivadas por pequenos desvios de calendário nas revisões periódicas ou por serviços realizados fora da rede oficial.

Além disso, permanecem dúvidas quanto à resolução definitiva dos problemas mecânicos. Embora a terceira geração do bloco 1.2 PureTech tenha abandonado a problemática correia de distribuição banhada a óleo em favor de uma corrente metálica, condutores e técnicos alertam que subsistem vulnerabilidades de conceção no bloco motor — nomeadamente consumos excessivos de lubrificante e anomalias de alinhamento e cames que obrigaram a novas intervenções e campanhas de recolha.

Para Antonio Filosa, virar a página da herança de Carlos Tavares exigirá bem mais do que declarações de intenções: para estancar a debandada de clientes para marcas concorrentes, a Stellantis terá de demonstrar que a fiabilidade no terreno e o apoio pós-venda acompanham o discurso de redenção da nova liderança.