Vencer oito campeonatos consecutivos de Construtores na Fórmula 1 não apaga a sensação de fragilidade competitiva. Para Toto Wolff, diretor executivo, diretor de equipa e acionista da Mercedes-AMG Petronas F1, o triunfo nunca é um porto seguro. Em entrevista ao portal Semafor, o responsável austríaco abriu o livro sobre o método com que gere a estrutura sediada em Brackley e explicou por que razão o sucesso não o livra da ansiedade da derrota.
"A minha mentalidade quando estou a ganhar é sempre a de que estou a olhar para o abismo. Sabes, pode acabar tudo amanhã", confessou Toto Wolff. "[No momento da vitória] saboreio-a, mas no dia seguinte tudo desapareceu, porque o receio de perder entra em ação."
Esta atitude intransigente chegou a suscitar reparos internos no passado. O antigo diretor de engenharia da Mercedes, Aldo Costa, chegou a alertá-lo de que a equipa não comemorava devidamente as conquistas. "Celebrar um sucesso é olhar para trás, porque isso já aconteceu. Nós já estamos no futuro, o que significa que ainda nada foi ganho", justificava então Wolff.
Contudo, o dirigente admite que reviu essa abordagem para não tornar o ambiente de trabalho "mais infeliz", passando a instituir momentos formais de comemoração após as corridas e reuniões com a equipa às segundas-feiras.
No dia a dia de gestão, Wolff aplica o que apelida de tough love, onde não há espaço para manobras de bastidores ou políticas de escritório. "Se recebo um e-mail de alguém a dizer qualquer coisa sobre outra pessoa, simplesmente reencaminho-o para toda a gente", revelou. "Não aceito arrogância. Não aceito a falta de verdade. Valorizo a humildade, a lealdade e a integridade. Sou 100% transparente com toda a gente."
A mesma lógica aplica-se à distribuição de protagonismo dentro da estrutura, garantiu Wolff. O "patrão" da Mercedes recordou que, à sua chegada à equipa, em 2013, Lewis Hamilton já estava em alta: "Ele já era uma superestrela, eu era novo, e disse que esta equipa não tinha duas superestrelas; esta equipa tem duas mil e quinhentas superestrelas. Não faço qualquer diferença no meu comportamento, no meu respeito ou nas minhas críticas se tens dez milhões de seguidores no Instagram ou se és uma pessoa anónima, porque para mim são todos iguais."
Com a Mercedes novamente na luta pelo topo e numa fase financeira histórica — tendo faturado cerca de 865 milhões de dólares em 2025 e podendo tornar-se na primeira escuderia da modalidade a quebrar a barreira dos mil milhões de dólares de receita —, Wolff continua a rejeitar a personificação do sucesso numa figura central.
O austríaco admite mesmo desconforto com a própria designação de líder: "Há um contexto histórico em que a tradução alemã de líder é Führer", disse, apontando ainda uma razão conceptual: "Não suporto organogramas em que alguém me coloca no topo de uma página com linhas hierárquicas a descer, como raízes na terra, porque não me vejo como essa pessoa."
Em vez disso, Toto aposta na criação de um ambiente onde a divergência seja produtiva e orientada para dados: "Gostaria de desenvolver uma organização onde o coletivo seja tão forte, e se sinta tão capacitado e seguro, que um debate saudável possa ter lugar para chegar ao melhor resultado possível. Isso não significa que procure o consenso, mas sim que o argumento mais convincente vai prevalecer."
Numa era de forte mediatismo alavancada pelo fenómeno da série da Netflix Drive to Survive, Wolff salienta que a exposição pública permanente é "uma bênção e uma maldição". Enquanto a gestão de uma empresa cotada tradicional responde a resultados a cada trimestre, na Fórmula 1 a avaliação é imediata e impiedosa.
"Prestamos contas 24 vezes por ano. Se ganhámos no fim de semana, a Mercedes é a melhor equipa de todos os tempos. Se perdemos, literalmente uma semana depois, há quem diga que a Mercedes está em declínio, que a Ferrari tem a vantagem e que o Toto Wolff devia demitir-se", resumiu.
Com uma formação de pilotos renovada — que junta a maturidade de George Russell ao talento do jovem Kimi Antonelli —, Wolff garante que a fama televisiva e a pressão mediática não lhe alteram as prioridades: "Isto é, mais uma vez, o pensamento do abismo. Já vi pessoas que namoraram tanto com a sua própria fama e acharam que eram diferentes e melhores, e simplesmente tropeçaram e falharam. Por isso prefiro manter-me equilibrado."