Numa era em que a indústria automóvel acelera em direção à eletrificação total, o Mazda MX-5 é dos poucos modelos que continua a erguer-se como das últimas fortalezas da condução analógica. Mas esses dias parecem contados. O lendário roadster nipónico, que desde 1989 advoga a filosofia Jinba Ittai — a ligação simbiótica entre o condutor e a máquina —, prepara-se agora para enfrentar o seu maior desafio histórico: a transição para as emissões zero, sem perder a leveza que o consagrou.
Em declarações à publicação alemã Auto Motor und Sport, o CEO da Mazda, Masahiro Moro, confirmou que a marca de Hiroshima já se encontra a preparar a arquitetura do sucessor do MX-5 para acolher uma motorização 100% elétrica.
"O sucessor do MX-5 tem de estar preparado para um cenário sem motor a combustão. O desafio para nós é tornar a estrutura básica mais leve sem recorrer a materiais exóticos como a fibra de carbono", disse Masahiro Moro.
A revelação de Moro reflete a principal encruzilhada da engenharia automóvel contemporânea: como integrar a densidade e o peso das baterias num modelo cuja identidade assenta no rigor da massa contida. De acordo com o líder da Mazda, o objetivo passa por manter o peso total do novo modelo fixado entre "pouco menos de 1000 kg e os 1200 kg".
Apesar da preparação para um futuro exclusivamente elétrico, a transição deverá ser faseada. Segundo as informações divulgadas pelos media internacionais, a próxima geração do modelo deverá manter opções com motor a combustão — especulando-se a introdução do novo bloco de quatro cilindros 2.5 Skyactiv-Z acoplado a tecnologia híbrida —, operando assim numa plataforma capaz de suportar ambas as soluções.
A atual quarta geração do roadster (conhecida pelo código ND), no mercado desde 2015, tem demonstrado uma longevidade invulgar no panorama atual. Ao longo de mais de uma década de comercialização, a Mazda optou por atualizações cirúrgicas — com destaque para a evolução de potência no motor 2.0 Skyactiv-G e pequenas melhorias de chassis e multimédia —, preservando a caixa manual de seis velocidades e a tração traseira purista.
Enquanto a maioria dos construtores descontinuou os seus desportivos acessíveis de dois lugares ou converteu as respetivas gamas em SUVs elétricos, o MX-5 permaneceu inalterado na sua essência. Esta resistência ao que parecem ser as grandes tendências de mercado é suportada pelo estatuto do modelo: com mais de 1,2 milhões de unidades produzidas desde o lançamento da geração NA original, o modelo mantém o título reconhecido pelo Guinness World Records de desportivo de dois lugares mais vendido de sempre.
A administração da Mazda tem, contudo, demonstrado pragmatismo. Em declarações anteriores à Road & Track, o diretor técnico da marca, Ryuichi Umeshita, admitiu que a engenharia trabalhava em simultâneo nas opções a bateria (BEV) e a combustão (ICE), reconhecendo contudo a vantagem de peso da arquitetura tradicional. Por sua vez, o CEO da Mazda Austrália, Vinesh Bhindi, sinalizou recentemente que a próxima iteração com motor térmico poderá ser, efetivamente, a última da sua linhagem.
Com o desenvolvimento da nova plataforma a decorrer, a Mazda procura assegurar que, independentemente da fonte de energia utilizada para mover as rodas traseiras, a assinatura de agilidade e simplicidade do MX-5 se mantenha intacta na era da mobilidade elétrica.