Antonelli cruza a meta EPA/DANIEL DAL ZENNARO
Motor

Kimi Antonelli obtém vitória histórica em Monza ao partir do 19.º lugar. Quebra jejum de 60 anos

Piloto da Mercedes superou George Russell a três voltas do fim após largar do fundo da grelha, numa tarde marcada pelo aparatoso despiste de Charles Leclerc.

Ricardo Simões Ferreira

Andrea Kimi Antonelli assinou este domingo uma das mais notáveis recuperações da história da Fórmula 1 ao vencer o Grande Prémio de Itália, no Autódromo Nazionale de Monza.

Despromovido ao 19.º lugar da grelha de partida devido à substituição de componentes da unidade motriz da Mercedes, o jovem piloto de Bolonha protagonizou uma corrida de ataque implacável, superando o colega de equipa George Russell a três voltas do final para selar uma dobradinha da equipa de Brackley — com uma margem de 3,857 segundos sobre o britânico — e encerrar um interregno de seis décadas sem vitórias italianas em casa, façanha que pertencia a Ludovico Scarfiotti desde 1966.

Antonelli cumpre o sonho de vencer em casa.

No terceiro lugar, a 14,718 segundos do vencedor, Max Verstappen completou o pódio ao volante do monolugar da Red Bull Racing.

"É absolutamente inacreditável", admitiu Antonelli após cruzar a linha de meta com quase quatro segundos de vantagem. "Sabíamos que tínhamos ritmo, mas começar de 19.º e vencer aqui, perante este público, é algo com que só podia sonhar. Quebrar este jejum de 60 anos em casa é uma honra indescritível."

Tensão na Ferrari e bandeira vermelha na Parabolica

A corrida começou a um ritmo frenético e desfavorável para a equipa da casa. Embora Pierre Gasly (Alpine) tenha arrancado da pole position, George Russell assumiu a liderança de imediato na abordagem à Variante del Rettifilo.

Atrás de si, os dois monolugares da Scuderia Ferrari envolveram-se numa disputa quase fratricida. Ao tentar conter o ataque interior de Lewis Hamilton na transição da primeira chicane, Charles Leclerc fechou a trajetória e (na perspetiva deste) empurrou o britânico para a gravilha, remetendo o heptacampeão mundial para o oitavo lugar. A reação de Hamilton pelo rádio foi inflamada: "O Leclerc empurrou-me para fora de pista"!, queixou-se Hamilton aos engenheiros de Maranello.

O revés na escuderia encarnada agudizou-se de forma dramática na segunda volta. Com perda evidente de rendimento em reta — atribuída preliminarmente a inconsistências no fluxo de potência do sistema híbrido —, Leclerc foi superado sucessivamente por Gasly e Verstappen. Ao tentar resistir a Oscar Piastri na entrada da Curva Alboreto (Parabolica), o SF-26 tocou na faixa pintada exterior, perdeu subitamente a sustentação traseira a mais de 230km/h e embateu violentamente contra as barreiras de proteção.

O acidente destruiu a barreira de pneus e forçou a direção de prova a interromper a corrida com bandeira vermelha no final da volta 3. Leclerc abandonou imediatamente o habitáculo pelos próprios meios, mas sentou-se na gravilha visivelmente atordoado, tendo sido conduzido ao Centro Médico do circuito.

Embora os primeiros exames tenham excluído fraturas, o monegasco revelou que o choque afetou a sua capacidade visual nos minutos que se seguiram ao impacto. "O pescoço estava bem, o problema foi apenas a visão no início", explicou depois Leclerc aos jornalistas. "O olho direito não estava a dar-me uma visão nítida logo a seguir ao impacto, e isso foi o que mais me preocupou ao sair do carro. Agora já está tudo normal, mas sinto dores pelo corpo, o que é natural."

O piloto adiantou ainda que realizará testes complementares nas próximas 24 horas para garantir a sua presença na ronda seguinte, em Madrid, manifestando ainda a frustração pelo desfecho: "Suspeito de uma anomalia na entrega de potência, mas é extremamente frustrante abandonar assim em Monza. Não posso mudar o resultado; temos de olhar em frente."

A cavalgada de Antonelli

Após os trabalhos de reparação das barreiras, os comissários autorizaram uma segunda partida parada. Russell aguentou a liderança na frente de Gasly e Verstappen, mas todas as atenções convergiram rapidamente para o W17 de Antonelli.

Valendo-se do andamento superior da Mercedes e de um ritmo de corrida impressionante, o italiano ultrapassou carros em série. Na 10.ª volta já ocupava a quinta posição; à 13.ª ascendeu ao pódio e, na 16.ª volta, desfez-se de Max Verstappen para chegar ao segundo posto. O duelo direto com Russell eclodiu entre as voltas 18 e 20, com trocas de ultrapassagens sob fortes aplausos das bancadas (os tiffosi da Ferrari aplaudiram o piloto da Mercedes como se fosse um deles) antes do início da primeira janela estratégica de paragens nas boxes.

O sinal para a viragem definitiva do Grande Prémio sucedeu à 31.ª volta, na sequência da ativação do Virtual Safety Car. Perante a neutralização, a Mercedes dividiu abordagens: manteve Russell em pista para defender a liderança com compostos duros usados e chamou Antonelli para colocar um jogo novo de pneus médios. A Ferrari replicou a opção de Russell com Hamilton, deixando ambos vulneráveis nas voltas derradeiras.

Do susto na gravilha ao triunfo definitivo

Com borracha mais macia e eficiente, Antonelli regressou no sexto posto a 15 segundos da dianteira, mas imprimiu uma cadência insustentável para a concorrência, rubricando voltas mais rápidas sucessivas. Ultrapassou Hamilton e Piastri com relativa facilidade, colando-se à asa traseira de Russell à 46.ª volta.

Por essa altura, os pneus duros do piloto britânico apresentavam já severos sinais de degradação estrutural e fortes vibrações. Ciente da desvantagem do companheiro, a Mercedes pediu contenção mútua, mas o ataque foi inevitável. Na volta 49, Antonelli tentou surpreender Russell pelo exterior na travagem para a primeira chicane, bloqueou as rodas e saiu momentaneamente para a escapatória de gravilha, cedendo cerca de dois segundos.

A recuperação do italiano foi imediata. Com tração superior à saída da Parabolica na volta seguinte, Antonelli utilizou a asa móvel no início da volta 50 para ultrapassar Russell por dentro na reta da meta, consumando a liderança a três voltas do final.

Russell cortou a meta na segunda posição, a 3,857 segundos do companheiro de equipa, e minutos depois, reconheceu a impossibilidade de conter o ataque: "Estou obviamente desapontado por perder a vitória tão perto do fim", lamentou o britânico. "Os meus pneus duros estavam completamente destruídos nas últimas voltas e já sofria com vibrações severas. Não tínhamos margem para defender contra o Kimi com borracha fresca. Ainda assim, uma dobradinha da equipa em Monza é um resultado de enorme valor."

No último lugar do pódio, a 14,718 segundos de Antonelli e a cerca de dez segundos de Russell, Max Verstappen valorizou os pontos amealhados numa pista tradicionalmente desafiante para o monolugar da Red Bull: "Extraímos o máximo absoluto do carro, hoje. Monza nunca foi o nosso traçado mais favorável, mas mantivemo-nos longe dos problemas, aproveitámos as paragens e conseguimos um pódio muito sólido. A Mercedes esteve noutro patamar em termos de ritmo."

Lewis Hamilton, o único Ferrari em pista, conseguiu recuperar até ao sexto posto, atrás dos McLaren de Lando Norris e Oscar Piastri, mas sem ritmo para contrariar os líderes após a estratégia de paragens tardias.