A indústria automóvel europeia enfrenta uma das encruzilhadas regulatórias e industriais mais delicadas da sua história recente. A aplicação das metas comunitárias de redução de emissões médias de dióxido de carbono (CO2) para frotas de veículos ligeiros — que impõem um limite estrito de aproximadamente 93,6 gramas de CO2 por quilómetro para novos registos — está a colocar os grandes grupos construtores sob o risco iminente de coimas que, no conjunto do setor, podem atingir entre 15 a 16 mil milhões de euros.
A pressão resulta do desfasamento entre o calendário legislativo e a realidade do mercado de consumo. Após um período inicial de rápido crescimento, a quota de mercado dos veículos 100% elétricos a bateria (BEV) estabilizou em patamares substancialmente inferiores às projeções oficiais da Comissão Europeia. O fim de incentivos estatais diretos à compra em mercados-chave, a lentidão na expansão de postos de carregamento público ultrarrápido e o diferencial de preço face aos modelos térmicos travaram a adoção em massa por parte de particulares e frotistas.
Perante o valor penalizador de 95 euros por cada grama de CO2 excedente multiplicado por cada veículo matriculado, os construtores estão a ser empurrados para soluções de recurso com forte impacto financeiro. Entre as opções imediatas contam-se a formação de consórcios de emissões (pooling) com concorrentes externos especializados em elétricos, a venda forçada de modelos a bateria com margens negativas ou o corte deliberado na produção de automóveis com motores de combustão interna para baixar artificialmente a média de emissões da frota.
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) e os principais líderes industriais do continente têm multiplicado os contactos com Bruxelas para tentar remediar a situação.
Embora o executivo comunitário tenha chegado a acolher mecanismos de flexibilidade e cálculo plurianual médio, o setor alerta que a rigidez do quadro sancionatório, combinada com a entrada agressiva de novas marcas e modelos produzidos fora do bloco comunitário, ameaça acelerar o encerramento de linhas de montagem e comprometer os planos de investimento em inovação e reindustrialização na Europa.
Certo é que o setor automóvel europeu atravessa uma crise quase sem precedentes, pressionado entre os rígidos regulamentos internos de emissões e a concorrência externa — em particular a chinesa, cujos apoios estatais ao longo de toda a cadeia de valor foram formalmente apontados pela Comissão Europeia na sua investigação anti-subsídios. Os próximos meses ditarão não só a sobrevivência das gamas tradicionais no mercado europeu, mas também a capacidade de o bloco comunitário reter a sua base industrial perante a nova vaga de concorrentes globais.