Na manhã de 31 de julho de 1971, a poeira no solo lunar da região de Hadley-Apennine, no hemisfério norte da Lua, foi levantada pelas quatro rodas de um engenho único. Ao volante do Lunar Roving Vehicle (LRV), o comandante da Apollo 15, David Scott, engatava a primeira mudança da história da humanidade fora do planeta Terra. Ao seu lado, no banco de passageiro do veículo apelidado de "Moon Buggy", o astronauta James Irwin observava as sombras projetadas pelas cristas dos Montes Apenninus.
Até esse momento, a exploração humana do solo lunar tinha-se limitado a caminhar com cautela a poucas centenas de metros do Módulo Lunar. O LRV alterou totalmente as regras do jogo. Capaz de atingir uma velocidade cruzeiro entre os 8 e os 10km/h, o pequeno rover estendeu o alcance da missão até aos 27,9 quilómetros percorridos ao longo de três saídas veiculares.
Esta nova liberdade de movimentos traduziu-se num triunfo científico sem precedentes. Ao subir as encostas do Monte Hadley Delta, a dupla de astronautas resgatou a famosa "Rocha do Génesis" (amostra 15415), um fragmento de anortosito com cerca de 4,1 mil milhões de anos que ofereceu à comunidade científica as primeiras pistas concretas sobre a crosta lunar primordial.
A engenharia necessária para acomodar um automóvel a quatro rodas numa pequena nave espacial nos anos 70 exigiu soluções inovadoras e (muito) imaginativas.
Sem qualquer espaço livre no interior habitável do Módulo Lunar Falcon, os engenheiros da Boeing e da Delco Electronics tiveram de tratar o veículo como uma peça complexa de dobragem mecânica.
O chassis de alumínio foi construído para se articular em três secções principais. Esta estrutura permitia recolher as quatro rodas — feitas com malha de aço entrelaçado e tiras de titânio para resistir ao piso abrasivo — diretamente sobre o corpo central do veículo.
Dobrado com extrema compactação, o rover de 210kg (cujo peso percetível caía para meros 35 kg sob um sexto da gravidade terrestre) ficava confinado a um espaço triangular exterior de apenas 1,5 por 1,5m. Uma vez na superfície lunar, sem recurso a geradores ou guindastes adicionais, os astronautas acionavam o sistema mecânico LRDS (Lunar Roving Vehicle Deployment System). Bastava puxar cabos e fitas de nylon para que molas de torção e roldanas desdobrassem o veículo, travando a estrutura automaticamente em escassos minutos.
Quando a missão da Apollo 15 chegou ao fim, o regresso à Terra exigia poupar cada grama de combustível no módulo de subida. O rover teve de ser deixado para trás, mas a sua despedida foi pensada com um rigor cirúrgico.
David Scott estacionou o veículo entre 90 a 100 metros de distância da nave. Esta posição visava proteger a câmara de televisão instalada na frente do rover do sopro e dos destroços provocados pelo motor de descolagem do módulo de alunagem. Pela primeira vez na história, os controladores de voo em Houston puderam operar a câmara remotamente a partir da Terra para captar e transmitir em direto para todo o mundo o momento exato em que a nave descolava do solo lunar.
São estas as imagens famosas captadas à distância do módulo a subir em direção à órbita lunar.
Sem vento ou qualquer outro tipo de erosão atmosférica para o mover, o rover permanece exatamente no mesmo local de estacionamento há mais de 50 anos, sujeito apenas às amplitudes térmicas brutais entre dia e noite lunar, que oscilam entre os +120°C e os -130°C.
A presença dos veículos na Lua não ficou esquecida nos arquivos históricos da NASA. Nas últimas décadas, uma nova frota de sondas orbitais internacionais regressou aos locais de aterragem para documentar e fotografar este património histórico da humanidade.
A sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da NASA, captou a partir de 2009 imagens de ultra-alta resolução através da câmara LROC. As fotografias revelam não só o chassis metálico do rover estacionado, mas também as linhas duplas paralelas deixadas pelas rodas na poeira lunar, perfeitamente preservadas ao longo de quilómetros.
A confirmação visual viria a ser reforçada por missões de outras agências espaciais. Em 2019, a câmara OHRC da sonda indiana Chandrayaan-2 (ISRO) obteve fotografias independentes com uma resolução de 25cm por píxel, reconfirmando a preservação intacta dos equipamentos.
Mais recentemente, a sonda sul-coreana Danuri (KARI/NASA), com a sua câmara ultra-sensível ShadowCam, continuou o mapeamento detalhado de todos os rastos de condução deixados no rególito.
Mais de meio século após a proeza de 1971, a mobilidade extraterrestre prepara-se para o seu maior salto tecnológico com o programa Artemis da NASA. O sucessor do "Moon Buggy" será o Lunar Terrain Vehicle (LTV), um veículo projetado sob uma filosofia de utilização contínua.
Durante a presença das tripulações humanas no Polo Sul lunar, o LTV transportará dois astronautas em missões de exploração pelas crateras geladas e acidentadas da região. Contudo, quando a tripulação regressar à Terra, o veículo não ficará inativo. Transformar-se-á num robô autónomo operado por inteligência artificial e controlo remoto, capaz de navegar sozinho, procurar depósitos de água em estado de gelo sob temperaturas inferiores a -200°C e realizar investigação científica ao longo de anos.
Numa fase ainda mais avançada da exploração espacial, a NASA e a agência espacial japonesa (JAXA) estão a desenvolver o Rover Pressurizado. Trata-se de um habitáculo móvel selado que funcionará como uma autêntica autocaravana espacial, permitindo aos astronautas viver e trabalhar no interior do veículo sem fato espacial durante expedições de até 14 dias.
A 31 de julho de 1971, a humanidade deu a primeira volta de automóvel noutro mundo. Hoje, essa mesma pegada sobre rodas serve de rampa de lançamento para a presença humana permanente na Lua e para a futura exploração de Marte.