Rivian / Wikimidia CC
Motor

Baterias ganham segunda vida nas fábricas. Rivian é o mais recente caso

Fabricante americana junta-se à Redwood Materials para criar sistema de 10MWh em Illinois, acelerando uma tendência global que transforma baterias usadas de veículos elétricos em centrais de energia.

Ricardo Simões Ferreira

A fábrica da Rivian em Normal, no estado norte-americano de Illinois, converteu-se no mais recente palco da transformação da economia circular da indústria automóvel. Numa parceria estratégica com a Redwood Materials — empresa fundada por JB Straubel, antigo CTO e cofundador da Tesla —, o construtor de veículos elétricos instalou uma central de armazenamento de energia de 10 Megawatt-hora (MWh) constituída por mais de uma centena de baterias em segunda vida.

O projeto é o primeiro a ser concretizado diretamente na fábrica de montagem de um construtor automóvel nos Estados Unidos, aproveitando módulos retirados de veículos de teste, protótipos de engenharia e devoluções de garantia para amortecer os picos de consumo elétrico da linha de produção e contornar os preços mais elevados das tarifas energéticas públicas.

Apesar de já não cumprirem os padrões de exigência necessários para a propulsão rodoviária, estas baterias mantêm habitualmente entre metade e quatro quintos da sua capacidade original. Através de plataformas de gestão inteligente, módulos com diferentes estados de degradação e químicas distintas, passam a operar de forma sincronizada como um único reservatório energético.

A central é recarregada durante as horas de menor consumo da rede pública ou através dos sistemas renováveis instalados na própria fábrica, libertando a energia acumulada nos momentos de maior intensidade na produção dos modelos R1T, R1S e R2.

Vários fabricantes já o fazem

A iniciativa da Rivian reflete um movimento em consolidação a escala global, no qual os grandes grupos automóveis procuram rentabilizar componentes antes da sua reciclagem final e aliviar a pressão sobre as redes elétricas locais. Na Alemanha, a BMW destacou-se como pioneira ao criar uma quinta de baterias na sua fábrica de Leipzig. A instalação interliga até 700 baterias usadas do modelo BMW i3 diretamente a quatro turbinas eólicas no recinto fabril, acumulando a energia produzida pelo vento para alimentar a linha de montagem ou injetar excedentes na rede nacional.

Também o grupo Jaguar Land Rover tem vindo a explorar diferentes aplicações comerciais no Reino Unido. Em colaboração com a Wykes Engineering, o construtor britânico concebeu centrais de armazenamento com baterias do Jaguar I-PACE para suporte à rede elétrica nacional. Em paralelo, numa parceria com a Allye Energy, desenvolveu geradores móveis a partir de baterias de modelos Range Rover híbridos plug-in, substituindo os tradicionais geradores a gasóleo em testes de campo e eventos em zonas sem acesso à rede.

Na Alemanha, a Audi optou por uma estratégia dupla ao integrar 60 baterias de protótipos do e-tron numa central de 4,5 MWh com a RWE, ao mesmo tempo que utiliza estes componentes usados nas suas estações urbanas de carregamento ultrarrápido, onde funcionam como um tampão para fornecer potências elevadas sem exigir infraestruturas elétricas adicionais nas cidades.

Ainda na União Europeia, a japonesa Nissan destacou-se com a instalação de um sistema de 3 MWh na Johan Cruyff Arena, em Amesterdão, com 148 packs de baterias do modelo LEAF ligados a painéis solares para garantir energia de emergência no estádio.

Por sua vez, a Mercedes-Benz Energy operou centrais de escala industrial em Hanover, com capacidade até 17 MWh, direcionadas para a regulação de frequência do mercado elétrico europeu.

Esta transição dos módulos de tração para o armazenamento estático demonstra que a utilidade económica das baterias não se limita à vida útil do automóvel. Ao transformar potenciais resíduos em ativos energéticos estratégicos, os construtores reduzem custos de operação e reforçam a sustentabilidade dos seus processos fabris muito antes de enviar os componentes para a reciclagem definitiva.