Encontrar o carro sem o emblema da marca no capô ou na grelha frontal é um transtorno, normalmente associado a atos de vandalismo ou ao roubo de recordações. No entanto, para milhares de condutores de viaturas modernas, o desaparecimento do logótipo circular deixou de ser um pequeno dano estético para se transformar num pesadelo financeiro que pode ter um custo superior a 2000 euros.
Esta nova modalidade do crime automóvel ganha força através de um método: ladrões munidos de ferramentas simples demoram escassos cinco segundos para arrancar o símbolo frontal de viaturas estacionadas na via pública, porque o verdadeiro prémio não é a peça de plástico ou metal — é o sofisticado módulo de radar montado imediatamente atrás.
Com a proliferação dos sistemas avançados de assistência à condução (ADAS), componentes como o Controlo de Velocidade de Cruzeiro Adaptativo (Adaptive Cruise Control) e a Assistência de Travagem de Emergência dependem de radares de alta precisão posicionados na frente do veículo.
Por razões de propagação de ondas, bem como de estética, vários construtores — com destaque para a Volkswagen em modelos como o Golf, Tiguan, Passat ou a gama elétrica ID — optaram durante anos por ocultar estes sensores logo atrás da insignia da marca.
Imagens de videovigilância captadas em bairros residenciais do sudeste de Londres, onde mais de 70 carros foram despojados das insígnias num espaço de apenas quatro dias, mostram duplas a atuar de forma coordenada, por vezes recorrendo ao uso de trotinetes ou bicicletas para acelerar a fuga. Segundo os media locais, a polícia suspeita mesmo da utilização de drones na noite anterior aos ataques para mapear quais as garagens e acessos com modelos elegíveis.
Embora a remoção demore um instante, o prejuízo para a vítima é enorme. A substituição do módulo de radar, aliada à instalação do novo emblema e ao indispensável processo de calibração eletrónica com equipamento especializado de oficina, atinge valores a rondar os 2500 euros.
Curiosamente, o componente assim retirado é, em teoria, inutilizável. Colocá-lo noutro veículo requer passar por um processo complexo de recodificação de software para o novo número de chassis. Ainda assim, a elevada procura por peças de substituição e os estrangulamentos na cadeia de distribuição de componentes automóveis criaram um próspero mercado paralelo e há hackers com fartura capazes de dar a volta aos sistemas de segurança.
Os sensores roubados são maioritariamente encaminhados para oficinas clandestinas ou plataformas de venda em segunda mão, servindo para reparar veículos salvados de acidentes de forma económica.
Em solo nacional, PSP e a GNR ainda não reportaram qualquer vaga sistemática focada no roubo do sensor do emblema, mantendo-se a atenção nas já conhecidas vagas de furto de catalisadores, faróis de tecnologia LED/Laser e volantes. Contudo, os peritos em segurança automóvel alertam que a vulnerabilidade técnica dos veículos em circulação em Portugal é idêntica à do resto da Europa.
Conscientes da falha no design e da facilidade com que o componente pode ser retirado, as marcas automóveis começaram a reagir. Nos modelos de última geração, incluindo na Vokswagen, o radar passou a ser instalado em compartimentos separados, mais recuados e integrados na estrutura do para-choques dianteiro, inviabilizando o acesso rápido a partir do exterior.
Para os proprietários de modelos de gerações anteriores, a recomendação passa por reforçar os cuidados de estacionamento, preferindo locais iluminados, recorrer a garagens fechadas sempre que possível e assegurar que a apólice de seguro do veículo cobre a reconstrução e calibração de componentes tecnológicos de assistência à condução em caso de furto parcial.