As linhas angulares do Cybertruck nunca foram consensuais. 
Motor 24

Tesla Cybertruck com quebra nas vendas torna-se um 'flop' ao nível do mítico Ford Edsel

Números de registos nos EUA revelam que a pick-up elétrica atingiu 15% da meta de produção no ano de estreia, com analistas a apontarem um desvio comercial superior ao do histórico fracasso da Ford.

Ricardo Simões Ferreira

O volume de entregas do Cybertruck, a controversa pick-up elétrica da Tesla, registou uma forte desaceleração no mercado norte-americano, ficando drasticamente aquém das projeções iniciais da fabricante. A acentuada quebra nas vendas levou já analistas do setor a traçar um paralelo direto com um dos maiores insucessos comerciais da história da indústria automóvel dos Estados Unidos: o icónico Ford Edsel de 1957.

Segundo os dados oficiais do número de veículos registados, revelados pela Cox Automotive e pela S&P Global Mobility, o Tesla Cybertruck contabilizou 38.965 unidades entregues ao longo de 2024, no seu primeiro ano completo de comercialização. Este volume representa cerca de 15% da capacidade anual de produção de 250.000 veículos anunciada pela empresa para a sua fábrica em Austin, no Texas.

A tendência de quebra aprofundou-se significativamente nos períodos seguintes, com o número de novas matrículas a cair 48,1% em 2025, fixando-se nas 20.237 unidades. A trajetória descendente manteve-se nos primeiros meses de 2026, período no qual foram contabilizados apenas 3519 registos. Além disso, os relatórios da S&P Global Mobility assinalam que parte destas entregas recentes não correspondeu a consumidores particulares, tendo sido absorvida por frotas internas de empresas do ecossistema do próprio Elon Musk, o patrão da Tesla, designadamente a SpaceX e a The Boring Company.

A Ford apostou, no final dos anos 50, que o Edsel seria um enorme êxito. Não foi.

Esta evolução comercial fundamenta uma análise publicada pela Bloomberg, que declara o desempenho da Tesla como um insucesso proporcionalmente superior ao do lendário Ford Edsel.

Quando a Ford lançou o Edsel em 1957, previa comercializar 200.000 unidades no primeiro ano, tendo alcançado cerca de 63.110 entregas, o equivalente a 31% da sua meta. Em termos de rácio entre a expetativa anunciada e os resultados reais, o Cybertruck registou metade desse aproveitamento no seu ano de estreia.

A incapacidade de converter o elevado volume de reservas iniciais em vendas efetivas é atribuída pelos peritos a um conjunto de fatores financeiros e operacionais.

Apresentado originalmente em 2019 com um preço base anunciado de 39.900 dólares, o veículo chegou ao mercado a custar 60.990 dólares na sua versão mais acessível. O valor ascendeu aos 79.990 dólares na variante de tração integral e ultrapassou os 99.990 dólares no modelo especial Foundation Series.

A esta divergência de preço somou-se a receção fria à estética angular em aço inoxidável e a ocorrência de múltiplos problemas técnicos com recalls ao abrigo da garantia, fatores que afastaram o público tradicional de veículos utilitários.

Apesar da elevada visibilidade mediática da marca, o desfasamento sustentado entre a capacidade industrial instalada e a procura efetiva coloca o futuro comercial do modelo sob forte escrutínio da comunidade financeira.