A fábrica do BMW Group em Leipzig concluiu uma profunda intervenção de modernização técnica e estrutural durante a paragem de produção do verão para preparar as suas linhas de montagem para a futura geração de veículos elétricos da marca, a Neue Klasse. A informação foi avançada esta quarta-feira, dia 19 de agosto de 2026, pelo portal noticioso NewMobility e confirmada pelo site especializado Electrive. A operação, que envolveu um investimento na ordem das centenas de milhões de euros, traduziu-se na instalação de 160 novos robôs industriais e na colocação de cerca de 1500 toneladas de novo aço para reforço das infraestruturas fabris, de acordo com dados do setor industrial alemão.
Durante as cinco semanas e meia de suspensão temporária das linhas, o complexo industrial saxónico substituiu também 240 mesas elevatórias por equipamentos hidráulicos de maior capacidade de suporte, segundo detalha o canal técnico Schmidtis Blog. A transformação foi desenhada para responder às exigências físicas da sexta geração de baterias (Gen6) de 800V da BMW, cuja arquitetura passa a ser integrada diretamente no chassis do veículo (pack-to-chassis), o que obriga ao manuseamento de componentes substancialmente mais pesados nas secções de carroçaria e montagem final, conforme explicam analistas da indústria automóvel.
As intervenções têm como objetivo direto acolher a produção da Neue Klasse – Nova Classe, a nova geração de veículos 100% elétricos da BMW –, embora o construtor mantenha ainda sob reserva quais os modelos específicos que serão atribuídos à unidade, confirmou a diretora da fábrica de Leipzig, Petra Peterhänsel, à agência alemã Deutsche Presse-Agentur (dpa).
Com os primeiros veículos da nova plataforma já destinados a Debrecen, na Hungria (o SUV iX3), e à fábrica-mãe de Munique (a berlina i3), Leipzig surge como a localização privilegiada para acolher as futuras derivações compactas da nova família elétrica, segundo apontam publicações especializadas como o BMWBlog.
Esta modernização consolida o modelo de produção flexível da unidade saxónica, historicamente pioneira na mobilidade elétrica com o fabrico do i3 original entre 2013 e 2022, salienta a própria marca nos comunicados oficiais do BMW Group PressClub. As linhas modernizadas continuarão aptas a produzir em simultâneo variantes a combustão, híbridas e 100% elétricas – onde se incluem os BMW Série 1, Série 2 Gran Coupé, Série 2 Active Tourer e o MINI Countryman –, garantindo a capacidade de adaptação contínua da fábrica à procura real dos mercados europeus.
Num momento em que se especula frequentemente sobre o impacto da automação e da inteligência artificial na eliminação de postos de trabalho, a transformação industrial de Leipzig surge como um contra-exemplo prático: a introdução massiva de novas tecnologias não se traduziu em despedimentos operacionais nas linhas de montagem. As equipas do chão de fábrica foram mantidas na íntegra, de acordo com dados do conselho de empresa do grupo (Betriebsrat).
A razão é essencialmente técnica e ergonómica. A instalação dos 160 novos robôs e a substituição das mesas elevatórias não visa substituir a mão de obra humana, mas sim dar suporte físico às equipas no manuseamento das novas baterias de 800V (pack-to-chassis), cujos componentes são significativamente mais pesados e exigem precisão de milímetros no encaixe estrutural.
A esta transformação do chão de fábrica junta-se ainda a estreia de robôs humanoides impulsionados por Inteligência Artificial Física (Physical AI), num projeto-piloto pioneiro do BMW Group em solo europeu. Em parceria com a empresa tecnológica Hexagon, a fábrica de Leipzig começou a testar em ambiente real o robô humanoide AEON – uma unidade de 1,65 metros de altura com torso articulado e deslocação sobre rodas –, desenhado para colaborar com as equipas humanas na montagem de módulos de baterias e na movimentação interna de componentes.
A aposta na robótica humanoide reforça a estratégia ergonómica da unidade, assumindo tarefas repetitivas e fisicamente desgastantes, sobretudo em secções de alta voltagem onde os trabalhadores operavam com equipamento de proteção pesado. À semelhança do ensaio realizado nas instalações norte-americanas de Spartanburg com o modelo Figure 02, a integração destes assistentes metálicos em Leipzig não visa substituir competências humanas, mas sim libertar os operários para tarefas de maior valor acrescentado, como a gestão de processos, o controlo de qualidade e a supervisão das linhas.
Apesar de o BMW Group ter em marcha um plano global de eficiência para poupar cerca de mil milhões de euros por ano – que contempla uma redução gradual de postos de trabalho até ao final de 2027 –, este programa foca-se exclusivamente em áreas administrativas e de suporte de escritório (como compras, desenvolvimento e comunicação).
Além disso, essa reestruturação de serviços centrais está a ser executada sem despedimentos compulsivos, recorrendo apenas a pré-reformas e rescisões por mútuo acordo, garantindo que as fábricas continuam a operar com a força de trabalho a 100% para responder à exigência da transição elétrica.